
A Copa do Mundo da Suécia, quando o Brasil se sagrou campeão pela primeira vez, tumultuou a festa de São João em Barão de Cocais. Há 68 anos. A FIFA marcou as semifinais para 24 de junho de 1958, às 19 horas na Europa, duas da tarde por aqui. Bem na hora da procissão.
Em Solna, arredores de Estocolmo, a seleção brasileira enfrentaria a França no estádio de Rasunda. Na mesma data, o time sueco, anfitrião do torneio, pegava a Alemanha Ocidental em Gotemburgo.
Eu me lembro.
Os festejos do padroeiro, primo de Jesus de Nazaré, obedeciam a rituais centenários em que as solenidades litúrgicas vinham anunciadas pelos sinos da matriz.
Os sinos eram a mensagem. A via de comunicação do arraial. Como a Internet, na atualidade.
A população informava-se pela linguagem dos repiques e dobres das sineiras. Das mãos mágicas de Juca Angelo, o mestre sineiro, brotavam piruetas sinfônicas, pulsantes como a Primavera de Vivaldi, para a celebração da vida, a entradinha da missa, a convocação para a procissão. Ou os timbres cavernosos do Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart para as notícias fúnebres, os enterros e as tragédias.
São João dispensava a tristeza. No adro, o pau de sebo desafia a rapaziada, com uma nota de valor ignorado no topo. Canjica, quentão e doses de felicidade servidas nas barraquinhas. O leiloeiro Amaro estufa as veias do pescoço apregoando os sabores do frango assado em fogão de lenha, recheado com farofa de miúdos de galinha.
Cavalinhos de balaio trançam entre traques e cabeças-de-negro. Sobre cavaletes ensebados, lutas de travesseiro. Os pés desviam-se das sobras da fogueira da véspera.
A postos, a banda de música, em uniforme de Semana Santa, aguarda a cerimônia com o andor do glorioso São João Batista, aquele que teve a cabeça decepada a mando de Herodes para agradar a Salomé. O Coral de Dona Laura ajeita as partituras.
As famílias aproximam-se do templo. Nós, das Três Bicas, calçávamos sapato Tanque, com biqueiras de aço. Anos mais tarde, vi o governador paulista Paulo Maluf na TV brincando de garoto propaganda do modelo. Na época, a gente não se orgulhava de usá-lo. Era atestado de pobreza.
O almoço fora bom – macarronada ao molho de sardinha, tutu acebolado com rodelas de linguiça Maria Rosa e nacos de músculos cozidos à exaustão até amaciar as fibras do gado velho, abatido em algum curral da redondeza.
Ninguém nunca sonhou com filé mignon. Não, por modéstia. Só, por desconhecimento. O bife dos ricos era invisível como cabeça de bacalhau. Pelo menos, aos da minha laia.
Em Barão de Cocais, cabia somente aos pimpolhos da companhia provar de seus mistérios, envoltos em sedução como a fruta do conhecimento do bem e do mal, pingente da árvore proibida pelo Senhor no paraíso terrestre.
O açougue do Jacinto, o único da cidade, dividia a cidade em dois blocos, o moderno e o barroco. Situava-se na Ponte de Cimento, onde terminava o povoado primitivo, com o sugestivo nome de Fim.
A rua comprida descia do Alto dos Minérios, prolongando-se pela Cabeça de Ferro, Ponte Paixão, Macacos, Largo da Matriz, até a casa de carnes. Era a fronteira entre as moradias confortáveis da Vila Operária construídas pela companhia e o lado antigo com poucos sobrados e muitas habitações de pau a pique, acanhadas.
O gentil açougueiro, de chapéu de vaqueiro, reservava o filé mignon para os doutores da CBUM. Dava preferência à turma da Vila, de melhor qualificação profissional e salarial, na seleção das carnes de primeira.
Aos filhos dos operários de salário mínimo, como nós, restava desfilar pela rua com um quilo de miolos de boi embrulhados em jornal. Ou uma porção de bofe bovino amarrada em tiras de embira, à vitrine pública. Descalços e na correria, para não queimar os pés na terra vermelha impiedosa.
O relógio da matriz sinalizou a hora de a procissão sair. Susto na esplanada. Em vez dos sinos, ouviu-se o vozeirão de Jorge Curi, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, aclamado como o melhor locutor esportivo do mundo.
Padre Gerardo Majela Pereira, torcedor fanático do Metalusina, não viu nada de mal em retardar o cortejo religioso. Mandou ligar os equipamentos radiofônicos da sacristia e irradiar o jogo histórico pelo alto-falante da torre.
De batininha pega-franga e ruça de cor, de tanto frequentar a fonte das Três Bicas, sentei-me no banco da praça. Em companhia dos coroinhas Zinho Geraldo Eustáquio, da Casa Syrio, Manoel Carlos Pessoa, sobrinho do Padre Pessoa, de Bom Jesus do Amparo, e João Come-Queijo, filho de Benedito Gregório dos Santos, imortal puxador de terços e ladainhas nas novenas domésticas.
Mineiro de Caxambu e irmão mais velho do cantor Ivon Curi, o radialista irrompeu soberano das torres coloniais. Narrou a partida que seria o prenúncio da consagração do garotinho negro de 17 anos de idade, eleito rei do futebol.
O Brasil venceu os franceses pelo placar de 5 a 2. Com três gols de Pelé, um de Vavá e outro de Didi. Pela França brilhou Just Fontaine, artilheiro da copa, com 13 gols.
Então, Juca Angelo tocou o sino. E a procissão saiu. Em fila, vestidos com o melhor paletó de brim, sem gravata, mas com o decoro próprio dos justos, os trabalhadores metalúrgicos de minha infância, encardidos pelo pó de carvão e o calor do alto forno, partiram alegres e triunfantes, no ritmo de Adeste Fideles, o hino do Natal.
A meninada preta não se contentava com a solidão do dono da festa no andor. Desconfiava que ali faltava alguém. Pelé, nosso redentor.
J.D. Vital, jornalista e escritor, foi coroinha de Padre Gerardo Majela e é leitor do jornal DIÁRIO DE BARÃO.



