Cerdá e Haussmann (por Leon Myssior)

A divergência entre o urbanismo europeu compacto e o americano disperso revela escolhas [...]

A divergência entre o urbanismo europeu compacto e o americano disperso revela escolhas políticas e econômicas profundas, não simplesmente diferenças estéticas ou técnicas. Aqui analisamos como dois planos icônicos moldaram cidades densas e como a América optou por caminhos inversos.

Ildefonso Cerdá, engenheiro catalão, concebeu – em 1854 – um modelo de expansão para a cidade de Barcelona que respondesse simultaneamente a três demandas: crescimento populacional, infraestrutura sanitária adequada e vitalidade urbana contínua.

O plano compreendia uma malha ortogonal de quadras padronizadas (113 × 113 metros), vias 20, 30 e 60 metros de largura. A altura máxima foi limitada a 16 metros, com uma ocupação perimetral em até 2 ou 3 lados da quadra. Para terminar, uma ocupação máxima de ⅔ dos lotes para as construções (⅓ liberado para jardins e espaços abertos).

Os edifícios alinhados pelo perímetro dos lotes proporcionaram centros das quadras desocupados, viabilizando ventilação natural, iluminação direta e acesso público a jardins. O plano original previa até 67.000 m2 de área construída, criando um cenário homogêneo.

Com uma visão distinta da de Cerdá, o Barão Haussmann, responsável pelas feições conhecidas de Paris, perseguia outros objetivos: facilitar manobras militares, modernizar higiene urbana, reorganizar socialmente a cidade e criar símbolos de poder administrativo, com a criação de bulevares radiais e circulares substituindo tecido medieval.

Objetivos diferentes, mas abordagens semelhantes: gabarito limitado a 5 ou 6 andares, fachadas padronizadas por um catálogo, alinhamento pelo perímetro dos lotes, criando pátios interiores de ventilação, mesmo com quarteirões irregulares em medida e formato. O modelo (gabarito e construção pelo alinhamento das calçadas) resulta em densidades excepcionais, superiores a 20 mil habitantes por quilômetro quadrado.

A um oceano de distância, as Américas seguiram um caminho diferente, e o século XX vê a adoção do zoneamento enquanto medida de segregação e controle, privilegiando bairros exclusivamente residencial, unifamiliar, com casas isoladas em lotes grandes, sem comércio próximo e dependência total de automóvel.

O resultado são densidades inferiores a 2.000 habitantes por quilômetro quadrado, e cidades

absurdamente espalhadas, consumindo território, recursos naturais e ampliando incrivelmente os custos com infraestrutura. Na prática, mantém elevados os preços de imóveis e segrega populações para áreas distantes.

Se a coisa é ruim nos Estados Unidos, no Brasil são ainda piores, apresentando um sistema baseado em zoneamentos ainda mais rígidos, e um sistema de afastamentos progressivos com baixíssimo aproveitamento dos lotes.

Alain Bertaud (e outros estudiosos com apreço por dados, e pela realidade) observaram que locais com zoneamento mais rígido (exclusivamente residencial ou comercial) contribuíram para encarecimento de terra urbana, congelamento da capacidade construtiva e redução do dinamismo econômico local.

Cerdá e Haussmann não inventaram a densidade, mas desenvolveram modelos onde a alta

densidade permite cidades mais compactas, com mais vitalidade e menor custo de implantação e manutenção da infraestrutura urbana, menor amplitude e menor custo para o sistema de transporte público, boa ambiência pela baixa altimetria e homogeneidade do cenário.

A escolha americana não foi técnica. Foi política. A manutenção do modelo não é política, é

descolamento da realidade, negação dos dados e ignorância, muita ignorância.

Leon Myssior é Arquiteto e Urbanista, Diretor Executivo da Incorporadora CASAMIRADOR, e fundador do INSTITUTO DA CALÇADA. Autor

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