Entre realidades e fantasias (por Ariosto da Silveira)

Pode-se imaginar os moradores de Tenerife, nas Canárias espanholas, de olho naquele navio azul e [...]

Pode-se imaginar os moradores de Tenerife, nas Canárias espanholas, de olho naquele navio azul e branco ancorado ao largo da costa. Não seria por curiosidade diante de fato raro ou inédito. Ali é caminho marítimo desde os tempos das descobertas do Novo Mundo, atingindo o auge no século passado com o trânsito dos grandes navios de passageiros sul-americanos rumo à Europa. Veteranos dessa travessia citam em suas recordações outonais o alívio de rever terra firme após semanas na monotonia de alto-mar.

Mas desta vez a visão do navio não tinha clima de festa. Era temor de algum passageiro baixar em terra trazendo um tal de hantavírus, transmitido por roedores e causa de doença brava, mortal. Algo parecido com o lendário temor dos bucaneiros do Caribe ante a ocorrência do escorbuto por falta de vitamina C dos alimentos frescos e infectados pelos vírus mortais transmitidos por ratos dos porões dos barcos sem higiene mínima.

Como vida e arte costumam andar de braço dado, a visão dos habitantes das Canárias conduz a outro mundo, dessa vez de fantasia, mas com raízes na realidade, pois o seu criador sustentava que nenhuma ficção se sustenta se não partir de um fato real. A cena está no final de uma obra-prima. Gabriel Garcia Márquez, repórter colombiano consagrado como escritor, contou ter observado como seus pais se conheceram, se relacionaram, e a partir daí compôs “O amor nos tempos do cólera”, publicado em 1985, três anos depois do Nobel de Literatura do autor, tratado na intimidade como Gabo.

O fecho do romance transporta ao navio nas Canárias. Os personagens Florentino Ariza e Fermina Daza tinham experimentado o amor dos verdes anos, mas ela, em busca de segurança, casa-se com outro. Ele, embora de comportamento nem tão virtuoso, não a esquece. Sempre detalhista quanto ao tempo em semelhantes circunstâncias, Garcia Márquez registra uma espera de 51 anos, 9 meses e 4 dias para que, viúva, Fermina aceitasse Florentino. Então, numa demonstração de que o amor resiste ao tempo e à distância, não tem idade, renova-se e se recria, os dois juntam-se literalmente. Num barco no Madalena, rio parecido com espinha dorsal do território colombiano, o casal vive amor intenso. Proprietário da empresa de navegação, Florentino determina estacionar no meio do rio e colocar no mastro a bandeira avisando quarentena do barco devido à cólera a bordo. Mentia para proteger o amor tardio, mas ardente.

Expressava-se aí a fantasia de Garcia Márquez. Dele e de seus personagens encontram-se facilmente inúmeros rastros tanto em Bogotá, encravada nos Andes, quanto em Cartagena, debruçada sobre o mar caribenho, por si só um repositório de histórias fantásticas.

Repetem-se com insistência situações de semelhante confusão entre fatos e irrealidades criadas com propósitos vários. Com o intitulado avanço tecnológico, para muitos enganoso e temível, surgem novas formas capazes de dar ares de verdade a falsidades – ou ficção, ou “fake news” ou simplesmente notícias falsas, mentiras para enganar. Esse ambiente pede o uso da razão, da reflexão crítica, a fim de distinguir uma coisa da outra.

Ariosto da Silveira é Jornalista.

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