COLUNA RONALDO HERDY

Correnteza seletiva

Diplomacia fluvial, na América do Sul, às vezes lembra condomínio em dia de assembleia: todo mundo fala em integração, mas alguns só aparecem para defender a (melhor) vaga da própria garagem.

Nesta quinta-feira, o Comitê Intergovernamental da Hidrovia Paraguai-Paraná se reúne em Assunção com uma pauta capaz de agitar mais que correnteza.

Entre os temas espinhosos está a exigência argentina de que embarcações brasileiras e bolivianas – apenas elas – levem piloto local ao cruzar águas sob jurisdição do país. O efeito da imposição é econômico: mais um custo pendurado no frete, pago por transportadores e embarcadores.

Convenhamos: quando a regra vale seletivamente, a discussão deixa de ser náutica e ganha perfume de proteção comercial.

A hidrovia não é detalhe regional. É um corredor estratégico para exportações e circulação de mercadorias, onde qualquer exigência adicional acaba repercutindo na competitividade dos países envolvidos.

E o desconforto não termina aí.

Nos bastidores do colegiado há outra irritação: a presidência do comitê, que pelas normas de rotação pró-tempore deveria ter passado à Bolívia no ano passado, continua nas mãos dos argentinos, que transformam interesse próprio em argumento institucional.

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