Força ou Auto Violência? (por Vera Helena Castanho)

Resiliência não é suportar tudo. É não se abandonar no caminho. [...]

Resiliência não é suportar tudo. É não se abandonar no caminho.

Vivemos tempos em que a exaustão ganhou prestígio. Há quem chame de força suportar o insuportável, insistir no que adoece, permanecer onde já não existe reciprocidade, seguir produzindo quando o corpo e a alma pedem pausa.

Mas nem toda resistência é virtude.

Existe uma diferença silenciosa entre força e auto violência. Força preserva o centro, mesmo sob pressão. Auto violência corrói por dentro enquanto mantém, por fora, a imagem de firmeza.

Muitas pessoas aprenderam cedo a sobreviver assim. Descobriram que agradar evitava conflitos, que calar parecia proteger, que carregar tudo trazia valor, que suportar em silêncio rendia reconhecimento. E, sem perceber, transformaram antigas defesas em modo de vida.

O problema é que aquilo que um dia ajudou a atravessar fases difíceis pode, mais tarde, aprisionar. A pessoa continua funcionando, entregando, resolvendo, atendendo expectativas, mas cada vez mais distante de si.

Nem sempre o sofrimento aparece em grandes cenas. Às vezes surge como irritação constante, cansaço sem descanso, impaciência com quem se ama, perda de entusiasmo, sensação de peso permanente, vazio mesmo em dias produtivos.

Resiliência nunca foi martírio. Nunca significou aceitar qualquer peso, qualquer ambiente, qualquer relação, qualquer ritmo. Resiliência é a capacidade de se reorganizar sem se abandonar.

Persistir pode ser nobre. Mas interromper o que destrói costuma exigir mais coragem do que continuar.

Há limites que libertam. Há pausas que curam. Há distâncias que devolvem paz. Há mudanças de atitude que não representam fracasso, mas respeito por si.

Talvez a maturidade comece quando a pergunta muda:

isso me fortalece ou apenas me consome?

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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