
A ciência derrubou, um a um, os antigos tronos. A Terra deixou de ser o centro. O Sol levou eras para ser reconhecido como rei e logo foi destronado. A galáxia perdeu qualquer privilégio essencial. Agora, até a ideia de centro desaparece num universo vasto demais para caber em pretensões locais. Fizemos a revisão astronômica, mas não completamos a revisão ética. Continuamos a nos imaginar como espécie escolhida, embora saibamos que habitamos um pálido ponto azul, provisoriamente fértil, suspenso num cenário sem garantias, como nos mostrou Carl Sagan fazendo a Voyager girar o pescoço para a última piscadela.
O universo não dá a mínima se a história da Terra será bela ou trágica, muito menos se nos favorecerá. Cabe apenas a nós reconhecer o valor do mundo em que vivemos e o equilíbrio delicado das condições que permitiram nosso surgimento e sustentam nossa permanência.
Vivemos uma era em que a Artemis II tira selfies deslumbrantes enquanto desenha um oito no espaço entrelaçando Terra e Lua numa demonstração de engenhosidade e coragem. Poderia simbolizar nosso infinito potencial de desenvolvimento, mas basta ampliar o zoom para surgirem espinhas de bombas, cravos de mísseis, feridas abertas nas florestas. O registro talvez revele descaso, insensatez, covardia e mesquinhez justamente de quem poderia tornar ainda mais bela a face da Terra.
Tudo isso deveria nos obrigar a uma revisão à altura do avanço científico e tecnológico. Nunca fomos os donos do mundo, mas podemos ser participantes especialmente importantes nessa trama complexa.
Em meio à efervescência da atualidade, parece urgente o resgate da palavra humanismo, embora seja necessário retirá-la da posição quase sagrada que ocupou por tanto tempo. Desde o Renascimento, o humanismo ajudou a afirmar a dignidade da pessoa, o valor da educação, a investigação racional e, mais tarde, os direitos humanos. Prestou um serviço imenso. Mas errou em dois pontos: falou em nome do homem enquanto operava sobre um recorte estreito de humanidade; e colocou o humano no centro do quadro com um grau de vaidade insustentável.
O humanismo contemporâneo, no entanto, não deverá falar de um homem desconectado das raízes e das formas concretas de poder. Precisa olhar de frente para a espécie que somos: capaz de criar beleza, conhecimento e invenção, mas também atrocidades.
Não basta ter bons sentimentos a respeito do futuro. Será preciso impedir que a automação e a precarização arranquem de milhões a base material sem a qual liberdade vira palavra ao vento. Será preciso uma escola de verdade. Capaz de formar gente em todas as áreas do conhecimento, e não apenas operadores apressados do próximo sistema. Será preciso vigiar a inteligência artificial com seriedade, sobretudo onde ela tocar direitos, saúde, trabalho, crédito, polícia, guerra. Será preciso conter a concentração de riqueza, dados e influência, além de combater lideranças e empresas que se comportem como cânceres para o planeta. Um progresso no qual a renda sobe enquanto a cabeça piora, o laço entre as pessoas apodrece e a base ecológica cede é retrocesso disfarçado de avanço.
Poderíamos escolher um ritmo de evolução que permitisse a todos acompanhar e retroalimentar melhor todo o processo. Porém, impulsionados pelas demandas de mercado, optamos pelo avanço a qualquer custo. Nossos rituais estão esvanecendo junto com o que há de mais humano em nós. O medo produz ansiedade em todas as escalas. Na maior, a força bruta espalha desconfiança em cascata. Os indivíduos se fecham em si mesmos, cheios de informação, mas receosos de se revelarem por completo. Ao enxergar o outro como adversário, tornam-se incapazes de estabelecer vínculos mais fortes. O humanismo perfeito não foca no homem, mas na melhor relação possível dele com os outros e o ambiente ao redor.
A melhor maneira de vencermos os desafios provocados por nossa própria evolução é através da cooperação e da predisposição para boas relações mesmo em ambientes onde há disputa. Somente com paciência, admiração e confiança mútuas construiremos a base para investirmos um no outro, condição essencial para a continuidade do sucesso de nossa espécie. Isso vale para indivíduos e para nações.
A velocidade das transformações desafia o homem a se ultrapassar. O problema é que ultrapassar a si mesmo não deveria significar viver sem compreender os próprios movimentos, sem saborear a vida ou deixar de construir com outros um mundo habitável. Nossos corpos e disposições foram moldados em um ritmo muito mais lento. Viemos de um tempo em que a noite ainda era noite, a distância ainda era distância, e a espera ainda fazia parte da forma humana de existir.
Agora, nossa criação mais recente consegue rivalizar conosco justamente no aspecto que nos tornou dominantes. Podem nos substituir sem cansar. Temos o poder de programá-la; o problema é que a estamos treinando para favorecer empresas, acirrar a competição predatória e produzir mais desigualdades. A inteligência artificial não chega a um mundo arrumado. Ela desembarca num planeta intensamente conectado, mas desigual, exausto, armado e febril.
No futuro, as máquinas tenderão a reduzir falhas, padronizar processos e apertar ritmos, mas o humano não se define pela ausência de erro. O que nos torna humanos é justamente a capacidade de falhar, reconhecer a falha, reparar, aprender e seguir adiante. Colaborar frente às dificuldades. Perdoar. Não há sabedoria em pensar o erro apenas como defeito; muitas vezes é ele o responsável pelo sabor da travessia. Não podemos esquecer a dignidade do nosso próprio inacabamento, nem perder a capacidade de reconhecer valor em tudo o que ajuda a diversidade da vida a florescer, sustentar-se e conviver com beleza.
Se tentarmos acompanhar em desespero a velocidade e precisão das máquinas e nos entregarmos levianamente aos interesses das grandes corporações, corremos o risco de perder justamente o melhor em nós: o talento contínuo de cair e refazer, de admirar em si e no outro o esforço imperfeito que amadurece.
A batalha pelo capital, embora importante para a liberdade, não pode justificar-se por si mesma e passar a determinar sucessivamente as condições futuras. A lógica está invertida. Quando apenas reagimos isoladamente, tornamo-nos comuns e dispensáveis.
Nosso modus operandi tem gerado selvageria, opressão e diminuído o valor que cada um de nós poderia ter para o outro. Acontece que nosso destino sempre dependerá do compasso adequado. Nossa dança exigirá criatividade, coordenação e liberdade suficiente para que cada indivíduo ainda consiga existir sem ser inteiramente absorvido pela estrutura. Se preservarmos isso, talvez ainda tenhamos boas chances.
Uma revolução do homem pelo homem, pela vida, surge no horizonte. Não necessariamente através da violência, mas da capacidade de coordenação em torno de valores comuns. Já sabemos o impacto que sanções, bloqueios e estrangulamentos econômicos exercem sobre países inteiros. Em um mundo super conectado, multidões também podem aprender a pressionar através da recusa, da escolha e da retirada coletiva de apoio.
Quem sabe assim o homem possa, até como efeito colateral de sua maturidade, desfrutar do avanço que promove, em vez de correr sem saber ao certo para onde vai ou por quê.
O velho humanismo quis reconhecer e elevar o homem. O novo precisa contê-lo — o suficiente para que a vida, enfim, possa continuar.
Glauco Saraiva é Escritor.




