Onde foi parar a inspiração? (por Leon Myssior)

Gosto não se discute; harmonia, proporção, inspiração e contexto histórico sim. [...]

Gosto não se discute; harmonia, proporção, inspiração e contexto histórico sim.
Quem não presta atenção, só repara naquilo que já não existe, depois do acontecido. Na
maior parte das vezes, apenas muito tempo depois.

Vale para as pequenas gentilezas do dia a dia, para as camaradagens entre vizinhos, para
o vínculo nas comunidades. Vale para o tempo em que crianças brincavam soltas nas ruas,
e iam sozinhas para a escola, desde cedo.

Vale para avenidas que eram lindamente arborizadas, vale para a rede de bondes que, em
seus quase 70 quilômetros, conectava a Pampulha à Cidade Jardim, cobrindo o Centro, o
Barro Preto e a Lagoinha.

Vale para os alfaiates e os especialistas em conserto de canetas-tinteiro, sapatos e relógios.
Vale para os estúdios de revelação de fotografias e os cinemas de rua.

E vale, sobretudo, para uma arquitetura neoclássica, art nouveau e art-deco que marcaram
as primeiras décadas da recém inaugurada capital de Minas Gerais.

Hoje, todo mundo acha que essa arquitetura valia muito, e que a arquitetura atual “não
chega aos pés”, mas aparentemente, enquanto seguia sendo derrubada, a partir dos anos
1980, não parecia fazer muita falta (ou nenhuma), pelo pouco que sobrou.

E, não tendo sobrado quase nada importante, quem cuida do patrimônio acaba focando
naquilo que não era excepcional, mas é o que ainda há para contar a história. É o
ecletismo, uma mistura de referências de estilos e épocas diferentes em pequenos e
grandes exemplares, imóveis privados ou públicos de uso institucional.

E o ecletismo não chega a ser, portanto, um estilo propriamente dito (em minha
modestíssima opinião, bem entendido), mas um “combinado” de referências.

Não obstante, tem sido recorrente nas redes sociais, comparativos entre prédios antigos e
prédios modernos. Os comentários são, às vezes indignados, outras vezes raivosos, mas
sempre saudosistas. Perguntas como “quando passamos disso para aquilo?”, “onde foi para
o bom gosto?” ou “porque já não se faz arquitetura como antigamente?” dão o tom, e
tentam conectar atualidade com uma certa degeneração moral, um símbolo de decadência
social e humana, sem se darem conta que o nazismo, o fascismo e o comunismo
prosperaram e colheram suas muitas dezenas de milhões de vítimas a partir de gabinetes
instalados em belos edifícios neoclássicos, art nouveau e art-deco, e enquanto seus líderes
e sua elite moravam em belos edifícios neoclássicos, art nouveau e art-deco.

A arquitetura (e os prédios) podem ser belos e inspirados, mesmo em momentos obscuros
e decadentes, tanto quanto podem ser pobres, pouco inspirados ou até mesmo
objetivamente feios, em momentos de grande evolução social, descobertas.

Mas é sempre uma pena, sobretudo em momentos de grande evolução humana, de
explosiva criatividade, quando o avanço científico e as descobertas na área da saúde
reduzem a mortalidade a níveis jamais vistos, e expandem continuamente a expectativa de
vida, produzirmos prédios feios e pouco inspirados.

Uma das explicações é quase prosaica, e ainda assim verdadeira: já não há mais artesãos,
artistas e pessoal de obra com capacidade (e em quantidade) para a ornamentação e o
detalhe típicos das arquiteturas neoclássica, art nouveau, art-deco e eclética. O método
atual, as normas construtivas, a legislação trabalhista e a performance econômica e
financeira exigida já não permitem elementos típicos dessa época e estilo.

E, com isso, a percepção de qualidade e luxo se deslocou, dos ornamentos, detalhes e
itens esculpidos a mão, para materiais exclusivos, caros ou duráveis (ou tudo junto).

Ainda assim, os prédios não precisam estar tão feios, pouco inspirados ou com as
proporções todas erradas, porque da proporção, da harmonia, da beleza, os prédios
neoclássicos, art nouveau e art-deco (e até mesmo os ecléticos) jamais abriram mão.

Os métodos mudam, os materiais mudam, os limites da mão de obra se reduzem, a
legislação exige, mas não custava nada contratar profissionais mais qualificados, mais
comprometidos e mais atentos, para projetar prédios mais bonitos, com a proporção correta,
e harmônicos.

Porque uma roupa cara não substitui um cabide ruim, assim como bons ingredientes não
garantem uma receita gostosa, nem um conjunto de dicionários e um suprimento ilimitado
de palavras garantem um texto inteligente ou uma poesia inspiradora, e com a métrica
certa.

A Ópera de Sidnei, o Museu Guggenheim e o Palácio do Itamaraty tem tanto valor
arquitetônico e relevância histórica quanto o Palácio de Versalhes, o Metropolitan e a Casa
Rosada, porque todos foram concebidos por profissionais talentosos, comprometidos,
visando o belo, um registro histórico de seu tempo, os limites técnicos e um senso de
proporção e harmonia ímpares.

Gosto não se discute; harmonia, proporção, inspiração e contexto histórico sim.

Que, em 2026, todos os contratantes de projetos de arquitetura compreendam o seu papel,
assumam seu quinhão de responsabilidade com a cidade e a sociedade, e escolham
arquitetos que jamais abram mão de conceber projetos, por mais econômicos e comerciais
que sejam pautados pelo espírito do momento (o zeitgeist), pela harmonia, pela beleza,
pela proporção, e pela percepção da perenidade que um prédio traz para as cidades.

Mais do que isso, que a população brasileira troque o saudosismo pelo ativismo em prol de
uma arquitetura responsável, prédio belos e harmônicos, e aprenda a cobrar do mercado
uma cidade mais humana, com prédios melhores.

Leon Myssior é Arquiteto e Urbanista, Diretor Executivo da Incorporadora CASAMIRADOR, e fundador do INSTITUTO DA CALÇADA. Autor

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