
Há meio século. Um casal mineiro misturava-se aos grupos que se sucediam diante daquela construção. Não era curiosidade quanto à aparência, pois o prédio não se destacava tanto quando comparado aos inúmeros palácios e outras edificações notáveis pela arquitetura e histórias próximas e remotas. Era um palácio, sim, e seu valor ganhava então outras dimensões. Naquele edifício da Porta de Ferro, em Madri, havia sido consagrada a transição de um poder a mão de ferro para uma democracia. Um conjunto de acordos firmou uma união para curar as mazelas deixadas por uma ditadura de quase quarenta anos.
Os acordos tomaram o nome do palácio. Os Pactos de Moncloa, assinados em 1977, foram gestados desde a morte do generalíssimo Franciso Franco, dois anos antes. Tal foi seu tempo de poder férreo que deixou marcas profundas na vida do país. Os espanhóis, ironizados por sua tradição de opor-se a qualquer governo (“Hay gobierno? Soy contra”), tinham pela frente uma penosa tarefa de conciliar os contrários. Havia resistências da banda político-partidária acomodada por quatro décadas, assim como o descontentamento e preocupação das classes trabalhadoras. A um socialista, Adolfo Suárez, coube conduzir o diálogo entre sindicatos e partidos políticos. O núcleo dos pontos negociados formou dois documentos principais assinados na sede do novo governo e Moncloa passou a representar um dos momentos maiores da Espanha no século passado.
Na sequência, os espanhóis acertaram, sem colocar no papel, o que chamaram de pacto do esquecimento, ou do silêncio. Propunha como atitude coletiva esquecer o passado. Um dos pontos era as vítimas do franquismo ou seus herdeiros não cobrarem reparações. Mas eram muitos os rastros deixados pelo regime anterior, tanto que ainda em 2007 as Cortes Gerais votavam uma lei determinando a retirada dos símbolos remanescentes em monumentos e prédios públicos. Um processo previamente calculado como extremamente difícil. Iam desde as inscrições “Francisco Franco, caudilho da Espanha pela graça de Deus” nas moedas de pesetas, circulantes antes da entrada do euro, até a gravação da mesma mensagem em inúmeros locais, ora com letras metálicas chamativas, ora esculpidas em mármore ou cimento.
Cabe comparar. Os espanhóis, cujas paixões os distinguiram em tantas ocasiões e fascinaram figuras como o escritor norte-americano Ernst Hemingway (viveu e descreveu em traços apaixonados as corridas de touro de Pamplona e as pescarias nos rios dos Pirineus bascos), foram capazes de superar diferenças e preservaram um regime de governo em dado momento extremamente frágil, sujeito a um retrocesso institucional. É um exemplo histórico, de aplicação em nações como o Brasil, cuja história é abalada por uma radicalização política comprometedora do futuro.
Não é preciso ter um palácio como Moncloa, de discreta nobreza com sua fachada salmão e quatro colunas de mármore branco sustentando a sacada palco de pregações inflamadas. Mas pede vontade e propósito, tanto de quem está liderando quanto dos que, no silêncio dos anônimos, são conscientes de um povo em conflito permanente não ter horizontes.
Ariosto da Silveira é Jornalista.




