
Diz a lenda que um rei pediu aos sábios que se incumbissem de preparar a História do Homem. Eles pediram dez anos para fazer o trabalho, e, como ao final desse prazo o soberano ameaçasse decapitá-los por não terem dado conta do recado, um dos sábios se propôs a sintetizar, naquele momento mesmo, as conclusões a que já haviam chegado.
Houve um profundo silêncio, o rei emocionou-se e então aquele homem de longas barbas brancas resumiu em uma frase a História do Homem: – Nasceu, sofreu, morreu.
A revista Veja publicou uma entrevista, assinada pelo repórter Kaike Nanne, com um homem que nasceu para sofrer.
Amaro João da Silva tem 46 anos e vive no “Engenho Bondade”, a 100 quilômetros de Recife. Nasceu e cresceu tão pobre que sua altura não ultrapassou a 1,35m. São assim também seus parentes e vários dos seus filhos.
Ele come carne uma vez por ano, quando muito. Só os filhos mais novos tomam leite: uma lata por mês, misturando o alimento com leite “para durar”. Em compensação, não usam roupas. Só os mais velhos, que vão passando os trapinhos para os pequenos, até não servirem para mais nada. Sapatos, ninguém usa.
Fora o filho mais novo, que dorme com os pais, os outros 12 dormem todos no mesmo quarto, em duas camas. A casa não tem água, nem esgoto, nem luz elétrica. Amaro não dá notícia de nada, absolutamente de nada que ocorre no mundo, a não ser que existiu um jogador chamado Pelé. Acredita em Deus, no padre e nos políticos. Nesse caso porque um candidato a vereador prometeu-lhe uma caixa de remédio e cumpriu a promessa.
Sua resposta sobre como é o céu cativa pela simplicidade: “É um lugar grande e bonito onde Deus mora. As almas boas vão pra lá e cada uma fica no seu cantinho, triste, descansando. Ficam tristes porque não podem mais comer, beber nem namorar.”
Ele se levanta às quatro da madrugada e anda duas horas até o local onde trabalha. Às sete da noite vai para a cama. Seu dia de descanso é o domingo, quando bebe dois copos de cachaça, toma banho e vai dormir.
Assim é a vida do brasileiro Amaro João da Silva, que se soma a outros milhões que atestam o acerto da síntese dos sábios para a História do Homem. Da saga de Amaro fica a admiração por ele não se dobrar diante do sofrimento.
Foi-lhe pedido que contasse em poucas palavras a sua história e ele disse isto: “Nasci e me criei aqui. Tenho 13 filhos e dei conta de tudinho.”
Quando morrer, Amaro está seguro de que, como é um homem honesto, vai para o céu.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.



