O dramático desafio do Botafogo (por Erasmo Angelo)

O Botafogo vai acabar? Faliu? Vai fechar as portas? O que fazer para salvar o clube? [...]


O Botafogo vai acabar? Faliu? Vai fechar as portas? O que fazer para salvar o clube?

São perguntas que já há alguns dias atormentam o universo botafoguense e que não conseguem encontrar respostas, sequer de alento.

Entender a crise que agora avassala o clube carioca é uma tarefa que demanda tempo e espaço, tamanha a lambança protagonizada e produzida pelo empresário norte-americano John Textor, que jogou a SAF botafoguense na ruina.

Nas complicadíssimas operações que Textor produziu com sua chamada organização internacional “rede multiclubes” (com caixa único), da qual fazem parte, além do Botafogo, o Lyon (França) e o Molenbeek (Bélgica) – todos também quebrados – sobrou para o clube carioca a escandalosa dívida de R$ 1,7 bilhão, valor a ser pago em 12 meses. O total negativo do Botafogo supera os R$ 2,5 bilhões. Os valores foram divulgados em relatório que vazou (e escandalizou os meios esportivos) há 10 dias.

Neste terrível imbróglio em que John Textor jogou o Botafogo, com ramificações internacionais e na procura por investidores para salvar o clube, o jornalista Rodrigo Capelo, especialista em SAFs e em texto no Estadão, adverte: “Vou te falar: com as próprias pernas a SAF não consegue. Ou alguém põe dinheiro, ou um processo de falência se avizinha”.

Na avaliação do economista, especialista em finanças do futebol, o que aconteceu com o Botafogo escapa das realidades esportivas: “Coisas de quem não é do ramo e resolveu se aventurar”. Para ele, em artigo também no Estadão, a partir do momento em que o fluxo passou a não ser suficiente para sustentar os investimentos, começou o colapso: “Quando a roda parou de girar, sobrou um clube com receitas medianas, custos elevados e dívidas insustentáveis… esta é a inviabilidade do clube”.

Textor começou como acionista majoritário do Botafogo em 2022 e a Eagle Holding dele passou a deter 90% da SAF botafoguense. A associação civil Botafogo ficou com apenas 10%. A gastança da reconstrução, que prometia ser gradual, sofreu um processo acelerado de elevação no nível de investimento, acumulando gastos e, principalmente, dividas. Em 2024, ano glorioso em que o clube conquistou de forma espetacular o Brasileirão e a Libertadores, o Botafogo empenhou R$ 535 milhões em reforços. Em 2025, os novos aportes foram estimados em R$ 630 milhões, com suspeitas de desvios para socorrer o francês Lyon. Tudo, uma aberração.

O que está acontecendo com o Botafogo, com tantas e graves ameaças à sua sobrevivência, é uma pena. É dolorido. Há certos clubes no Brasil que provocam sentimento de simpatia pelos torcedores de outros clubes. O Botafogo está entre eles.

Não arrasta multidões fora de sua sede, no Rio de Janeiro, como acontece com Flamengo e Corínthians, mas adquiriu seu espaço de simpatia pelo Brasil afora. No ranking de torcidas na pesquisa CBF/Nexus, de julho de 2025, o Botafogo ocupa a 11ª posição, com 2% de preferência nacional (Flamengo com 26% e Corinthians 19% são os primeiros).

A tradição do clube carioca na história do nosso futebol, é notável. Suas marcas registram que surgiu há 132, com Clube de Regatas Botafogo (01/07/1894). Depois passou a Botafogo Football Club (12/08/1904). Em 08/12/1942 fez a fusão com o Remo e virou Botafogo de Futebol e Regatas. Sua torcida o chama de Fogão, Glorioso e Estrela Solitária.

Teve craques fabulosos, como o lendário atacante Heleno de Freitas (209 gols de 1940 a 1948). Sua camisa foi vestida por jogadores notáveis como o goleiro Manga, os zagueiros Nilton Santos, Carlos Alberto Torres, Marinho Chagas, Mauro Galvão; os meias fabulosos Didi, Gerson, Paulo César Caju e Alemão; atacantes espetaculares como Garrincha, Jairzinho, Amarildo, Zagalo. Na história, quase 50 de seus jogadores atuaram na Seleção Brasileira. Em 1998, Garrincha e Nilton Santos foram indicados à Seleção Mundial do Século XX.

Tudo isso, toda essa glória e uma magnífica história, está para ser jogada fora por culpa de um aventureiro relapso.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

Compartilhe esse artigo: