O Tempo da Presença (por Vera Helena Castanho)

Maturidade como capacidade de sustentar o invisível [...]

Maturidade como capacidade de sustentar o invisível

Existem temas que não podem mais ser protelados.
Na semana passada, falávamos das decisões que se formam antes da razão.
Movimentos silenciosos, invisíveis, que ganham forma e força até se tornarem ação.

Mas há algo ainda mais sutil e inevitável: aquilo que não chega a se tornar decisão e, ainda assim, atua no nosso cotidiano.

A presença.

Componente da nossa lucidez do dia a dia e tão pouco levada em conta.
E está sempre em operação, mesmo quando não há intenção.

Não me refiro apenas ao que fazemos ou dizemos.
Mas ao que sustentamos.

Estado interno, humor, tensão, lucidez.
Tudo isso compõe um campo silencioso que nos preenche e atravessa o ambiente, alcança o outro e organiza, ou desorganiza.

Gostamos de acreditar que controlamos nossa influência pelas palavras.
Investimos em cursos, técnicas, ferramentas de comunicação.
E, ainda assim, ignoramos o que mais atua.

Porque a maior parte do que circula entre as pessoas não passa pelas palavras.

Circula no modo de estar.

Há presenças que aquietam sem esforço.
Outras tensionam, mesmo em silêncio.
Algumas sustentam dignidade.
Outras espalham ruído.

E quase nunca isso é intencional.

Existe uma ilusão confortável de neutralidade.
A ideia de que “não fiz nada”.

Mas presença não é escolha pontual.
É condição permanente.

É autoridade interna.

Uma autoridade que não se impõe, não se exibe, não depende de poder,
mas se revela na forma como ocupamos o espaço e afetamos o outro.

Mesmo quando saímos de campo, algo de nós permanece.
Mesmo quando nos calamos, algo segue sendo dito.

Ou a presença estrutura, ou ela contamina.

Não se trata de perfeição.
Nem de controle.

Trata-se de responsabilidade silenciosa.

De sustentar um modo de estar que não invade, não pesa, não desorganiza, ainda que isso exija, muitas vezes, conter o que em nós ainda não encontrou forma.

Porque o que não é elaborado não desaparece. Se espalha.

Ansiedade, irritação difusa, cansaço sem nome.
Forças que não encontram linguagem tendem a circular sem direção, afetando o ambiente de maneira sutil, porém constante.

O desequilíbrio cobra seu preço rapidamente.
Entre nós, aprendemos a sofisticar o adiamento.
E chamamos isso de adaptação.

Mas o que é adiado permanece ativo.

Presença, nesse sentido, não é calma.
É participação inevitável.

Não é sobre intenção.
É sobre ação de efeito.

E talvez maturidade seja isso:
reconhecer que estamos sempre atravessando a vida do outro
e sendo atravessados por ela.

Com ou sem consciência.

Presença não é só estar.
É o movimento que acontece a partir de nós o tempo todo.

E por isso, talvez não haja escolha mais exigente,
nem mais ética e humana
do que a forma como ocupamos o mundo.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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