
As senhorinhas sentaram-se à mesa. Eram duas. Penduraram as bolsas de pano nas cadeiras do restaurante no Mercado Central de Belo Horizonte, congestionado de turistas e abarrotado de especiarias como o Grande Bazar de Istambul, na Turquia.
Tiraram os sapatos de salto bloco. Óculos Ray-ban na testa. Deram um suspiro que merecia o aplauso da freguesia. Descalças, as siamesas arriaram-se no seu canto com a felicidade colorindo as faces pregueadas.
Pela pele acobreada, elas seriam vistas como bugres em Nova Belluno, atual Siderópolis, e nas vizinhanças de Treviso, Cocal do Sul, Nova Veneza, Forquilhinha, Urussanga e Criciúma. Sei do que estou falando: já vivi por lá.
Foi sempre assim aquele olhar escabreado. Desde 1891 quando os primeiros imigrantes italianos obtiveram incentivos, que nunca foram dados aos escravizados por 300 anos no Brasil, para se instalarem nas serras de Santa Catarina, a 100 quilômetros de Laguna, onde Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 1821.
Ana Ribeiro foi descrita como “tesouro proibido” pelo futuro marido, o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi. O magno “condottiere ” combateu na Revolução Farroupilha, participou da Unificação da Itália e introduziu a heroína brasileira na história como a fantástica guerrilheira Anita Garibaldi.
Recentemente, Santa Catarina pisou na história de reparações a crimes raciais, como os massacres praticados por bugreiros, contratados por empresas de colonização da região. Os índios da etnia Xokleng foram perversamente perseguidos e quase exterminados para cederem suas terras aos imigrantes europeus, sobretudo aos alemães, segundo relata o antropólogo Sílvio Coelho dos Santos no livro “Os índios Xokleng – Memória Visual”, publicado em 1997.
As tropas de bugreiros, formadas por grupos de até 15 caçadores de índios, “deslocavam-se pelas trilhas à noite, em silêncio. Quando localizavam um acampamento, atacavam de surpresa. Primeiro, disparavam-se uns tiros. Depois passava-se o resto no fio do facão”.
Expedições como essas, citadas na obra, eram comuns nas matas de Santa Catarina até 1930, a mando de autoridades locais. Em entrevista à BBC News Brasil em 2021, Brasílio Pripra, então com 63 anos de idade, narrou a carnificina cometida contra seus antepassados em 1904, registrado pelo jornal “Novidades”, de Blumenau.
“As crianças foram jogadas pra cima e espetadas com punhal. Naquele dia, 244 indígenas foram covardemente mortos pelo Estado”.
Em “Colonização e Genocídio – o caso dos indígenas Laklãno/Xokleng na colônia Grão-Pará”, a política de remoção sistemática das tribos nativas é escancarada pelos pesquisadores Tatiane Soethe Szlachta, mestranda em Ensino da História da UDESC e Geovan M. Guimarães, arqueólogo e professor da Universidade do Sul de Santa Catarina. (Revista História em Reflexão, Vol. 18, 2024).
Foi preciso o STF unir-se e derrubar, por 10X0, a lei que proibia cotas raciais nas universidades do estado.
Aprovada na Assembleia Legislativa, a lei ganhou a sanção do governador Jorginho Mello, do PL. Alegava-se que a ação afirmativa seria desnecessária no estado com a maior população branca do país. A Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC emitiu nota aplaudindo a decretação da inconstitucionalidade da lei.
Pensando bem, as senhorinhas podiam até ter um pé nas tabas do Rio Doce, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse tê-lo na cozinha, revelando seu traço africano.
As freguesas lembravam-me imagens da infância.
Uma das caboclas personificava minha inesquecível madrinha Gabriela – o rabo de cavalo caído nas costas, a tez de barro. A serenidade dos humildes. Dindinha jamais modificou, ao longo da vida, o feitio e o padrão do costume festivo ou cotidiano – saia maria-mijona, cores sóbrias, acanhadas. Trocava de costureira, nunca de modelo no vestuário.
Senti, porém, na mulher à frente, falta da sombrinha, companheira inseparável daquela que me tratava por Juca, nas jornadas para dontar comadres e afilhados. Ou seja, visitá-los, no linguajar mineiro.
A outra caburé movia-se, com agilidade, no vestido de estampa floral. Longo até a metade das canelas. Exibia uma aliança de alguns quilates no dedo. Pegava nos talheres com firmeza. Como se fosse capar o leitão.
Conversavam pouco. Em baixo tom, murmurantes ao confessionário. Com elegância e traquejo, levavam o guardanapo aos lábios após cada garfada. Finas. Magricelas. Cabelos caiados que contavam o voo das décadas, talvez sete ou mais.
Só podia vir das profundezas das nossas entranhas o par carismático de visitantes à procura da parentada na capital.
Segundo o último censo do IBGE, 37 mil pessoas, que se declararam de origem indígena, povoam Minas Gerais na atualidade. Elas pertencem a 208 etnias e comunicam-se em 81 idiomas. É mais que Santa Catarina (21.541), menos que São Paulo (55.295).
Em Belo Horizonte, o IBGE registrou uma heroica população indígena de 2.654 cidadãos falantes em 36 línguas, de 107 etnias originárias, com destaque para os Xacriabá, Pataxó, Maxakali e Krenak, um deles o escritor e acadêmico Ailton Krenak, das Academias Mineira e Brasileira de Letras, que conheci ainda rapaz nos estúdios da agência Quilombo de Márcio Ferreira e Milton Nascimento.
Abriram o cardápio. Sem qualquer pista de estupor ou assanhamento.
Dividiram uma Claudionor, produzida em Januária, Norte de Minas, como aperitivo. Preço: R$ 18,00 o cálice.
Dois chopes argentinos Patagônia, cada um a R$ 18,90.
Mandaram servir, de entrada, uma porção de Maria Angu, dez unidades de pastel de angu, e negociaram meia porção de torresmo de rolo ao “delicioso ” molho agridoce.
Pareciam famintas.
A garçonete, maquininha de cartão de crédito no bolso do avental, explica que a iguaria suína custa 60,00. A moça reclama da vida. Mora no Céu Azul, na regional Pampulha. Viaja, diariamente, 50 minutos de busão até o Mercado, localizado no centro da cidade.
Casal de alemães acomoda-se onde encontrou lugar. O homem ordena um pedaço de chouriço, com gestos que a atendente entendeu como sem pimenta e bem acebolado.
Chegam os pratos principais para as clientes de minha preferência.
Feijoada? Picolés de frango caipira com ervas finas, “empanados e fritos à perfeição acompanhados de uma calda de goiabada que te leva ao paraíso”?
Errei.
Feijão tropeiro e rabada com agrião, também não. Nem fígado rodeado de jiló, estrela gastronômica da casa.
Para uma delas, arroz de pato. Para a companheira, salmão grelhado.
É sexta-feira, 12:39 horas de abril do ano de 2026, vésperas de feriado nacional.
Diante da comanda culinária, perguntei:
- Vocês são do Rio ou de São Paulo?
Nã-na-ni-na-não.
- Viemos de Pernambuco, de Santo Antão da Vitória, terra do ceramista Zezinho de Tracunhaém, criador de estátuas de mendigos de braço cotó – informaram.
J.D. Vital é Jornalista e Escritor, Autor de “Morte em Cocais ”, à venda na livrariaramalhete@gmail.com




