
Há uma frase atribuída a Marília Pêra que diz:
“Quando você estende o tapete vermelho para o outro, quem mais brilha é você.”
Escutei-a de Miguel Falabella, durante uma conversa no Programa Roda Viva. Falavam sobre cinema, teatro, palco, talento e a relação do artista com o público. Sobre sucessos, aplausos, ensaios e apresentações. Mas também sobre fracassos, fragilidades e tudo aquilo que acontece quando as luzes se apagam.
Enquanto acompanhava aquela conversa, dei-me conta de que essa frase falava muito menos sobre artistas, famosos e palcos e muito mais sobre a vida e suas representações simbólicas.
Foi então que minha atenção deixou a frase e se voltou para o próprio símbolo do tapete vermelho.
O tapete vermelho talvez seja um dos símbolos mais representativos do imaginário da sociedade contemporânea.
Ele anuncia prestígio, reconhecimento, sucesso e admiração. Quando é estendido, quase naturalmente nossos olhos se voltam para quem irá percorrê-lo.
Não é o tapete em si, nem sua cor, que nos atrai.
É o que ele representa.
No imaginário do nosso tempo, o tapete vermelho tornou-se um dos grandes objetos de desejo. Não apenas pelo luxo que simboliza, mas pela promessa de visibilidade, reconhecimento e validação que parece oferecer.
O tapete vermelho não conduz apenas quem o percorre. Ele também conduz o olhar de quem observa.
Quase sem perceber, nossa atenção é atraída por quem desfila sobre ele. Nosso olhar acompanha seus passos, detém-se na elegância, no sorriso, na forma como se relaciona com o público. Muitas vezes, imaginamos como seria ocupar aquele lugar.
Todo esse cenário compõe uma das grandes representações do palco da vida moderna.
Enquanto acompanhava aquela conversa, mesclada aos meus próprios pensamentos, uma pergunta tornou-se inevitável:
Qual é o piso que sustenta a vida de uma pessoa quando o espetáculo termina?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes do nosso tempo.
Vivemos em uma sociedade que investe enorme energia na conquista do reconhecimento, do desempenho, da visibilidade e dos resultados. Muito menos energia, porém, é dedicada à construção daquilo que sustenta uma pessoa quando os aplausos cessam e a vida retorna ao seu ritmo cotidiano.
Sabemos que esse piso não é feito apenas de alegrias, prestígio e sucesso.
Ele é construído, silenciosamente, ao longo da vida, na edificação de um mundo interno que organiza nossas emoções, sentimentos e pensamentos e, por consequência, influencia nossas decisões, comportamentos e ações.
Alguns o chamariam de maturidade.
Outros, de caráter.
Prefiro chamá-lo de autoridade interna.
Não como sinônimo de poder, rigidez ou superioridade, mas como uma construção silenciosa da mente humana. Uma estrutura que se fortalece pela experiência, pela reflexão, pelos enfrentamentos da vida e pela disposição permanente de rever a própria maneira de pensar.
É ela que nos permite permanecer de pé quando tudo parece desabar, quando a urgência nos pressiona ou quando a realidade nos convida a enfrentar aquilo que não esperávamos.
É ela que nos ajuda a perceber os espaços que ainda precisam ser fortalecidos em nós, sem transformar fragilidades em sofrimento ou confusão mental.
É ela que nos permite conviver com desafios familiares, sociais e profissionais, muitas vezes marcados por conflitos, desequilíbrios ou agressividade, sem permitir que essas circunstâncias determinem nossas ações.
É ela que amplia nossa capacidade de pensar antes de reagir, preservando a calma, o bom senso e o discernimento para construir as melhores respostas, as possíveis diante da realidade.
Toda escolha envolve riscos.
E há momentos em que a própria realidade nos pede um recuo. Não como sinal de fracasso, mas como oportunidade para compreender melhor o momento, reorganizar os pensamentos, revisar caminhos e seguir adiante com mais consciência.
A autoridade interna não elimina a dúvida.
Ela amplia nossa capacidade de permanecermos lúcidos, reflexivos e responsáveis em meio às incertezas e às turbulências da vida.
Talvez seja justamente essa estrutura interna, silenciosa e continuamente construída que permita reconhecer talentos, compartilhar protagonismo e oferecer espaço ao outro sem sentir que estamos perdendo o próprio lugar.
Quem fortalece sua autoridade interna compreende que seu valor não depende de ocupar sempre o centro da cena.
Ao contrário.
Quem oferece espaço, confiança e reconhecimento não perde luz.
Revela a qualidade da própria.
Talvez esse seja o verdadeiro tapete vermelho.
Não aquele que a sociedade estende diante de nós por alguns instantes.
Mas aquele que construímos, dia após dia, na consciência que sustenta os nossos passos quando o espetáculo termina
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



