Religiosidade (por Luís Giffoni)

Para descobrir a religiosidade atrás do dia a dia, ofereço uma receita bem simples: basta um jantar em [...]

Para descobrir a religiosidade atrás do dia a dia, ofereço uma receita bem simples: basta um jantar em casa. Sozinho. Para começar, feche as janelas, reduza a luminosidade, vista uma roupa confortável. Prepare sua comida, um macarrão por exemplo. Escolha o vinho de sua preferência. Acenda velas e incenso suave. Ponha para tocar um disco de música antiga, como do compositor quinhentista Josquin des Prés (ou Desprez). Pronto, está montado o aparato para a travessia, ou melhor, a religação com você mesmo e a nossa espécie.

Saboreie sem pressa a massa, o vinho, sua cor rubra ou dourada contra a chama, a música, os odores, a penumbra, o contato da boca com a comida e a bebida, descubra o peso do talher, fique atento à mastigação. Pense nas centenas de pessoas que contribuíram para seu prazer. Quantos plantaram e colheram o trigo, construíram sua casa, desenharam, fabricaram e transportaram a baixela, o aparelho de som, as velas, podaram as videiras, quantas horas Josquin investiu até encontrar a combinação correta das notas musicais. As pessoas se uniram através dos tempos para possibilitar seu mergulho na plenitude, isto é, em você mesmo. Gente famosa e anônima, viva e morta, através de seus ofícios, rendeu-lhe uma homenagem, sem conhecê-lo, sem sequer saber que você viria a existir.

Conscientize-se do elo comum entre os séculos, abrace o coração da festa, desvele a origem desses requintes, o gênio humano.

Integre-se agora, sem receio, ao caudal do melhor lado de nossa natureza. Descubra que continuamos a medida e o sentido de todas as coisas. Eis a religiosidade por excelência. Põe em contato as gerações passadas, presentes e futuras, numa cadeia de fraternidade e de partilha que exalta nossa grandeza e nossa fragilidade. Perceba o paradoxo: se o experimento der certo, talvez você se sinta maior ao se transformar em simples ponte entre épocas, átimo de consciência na enormidade do tempo.

O que é isso? Transcendência, delírio, epilepsia do lobo temporal? Quem sabe? Pelo sim, pelo não, vale a pena tentar religar-se à própria espécie, um gesto importante, mas pouco praticado. Entre a vastidão e o nada, paira a vida. Entre as possibilidades e as certezas, colhemos os dias. Bom apetite.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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