Pais e Filhos da política brasileira (por Maria Eduarda Oliveira)

Li recentemente o famoso livro da literatura russa “Pais e Filhos”, do autor Ivan Turguêniev. Uma grande [...]

Li recentemente o famoso livro da literatura russa “Pais e Filhos”, do autor Ivan Turguêniev. Uma grande obra, apesar de um pouco desafiadora. Nela, acompanhamos a história do jovem Arkádi Kirsánov e do seu intrigante amigo e “mestre”, Evguêni Bazárov, o qual é um estudante de medicina e tem como principal característica a defesa do niilismo, o que significa que ele “considera tudo de um ponto de vista crítico” (TURGUÊNIEV, 2021, p. 44), ou melhor, que rejeita todos os valores tradicionais da sociedade. O enredo do livro irá acompanhar a volta de Arkádi – junto com Bazárov – para casa do pai depois de passar anos fora estudando, bem como visitas à casa de Anna Serguêievna Odíntsova, uma jovem viúva, rica e inteligente; além de duas passagens na casa dos pais do “mestre” niilista. Para não me estender muito e partir para o cerne principal do artigo, destaco do livro todas as nuances que giram em torno dos diálogos entre Bazárov e os demais personagens.

O jovem médico é contra toda a tradição, a arte e as emoções que integram a vida cotidiana, o que o faz entrar em conflito com, principalmente, a geração mais velha da obra, como o tio de Arkádi e o seu pai. São debates acalorados que evidenciam as diferenças entre gerações naquela Rússia camponesa, mas que, caso expostos em espelhos, com certeza os reconheceríamos nos dias atuais. Com todas estas questões reveladas, onde eu quero chegar?

Durante toda a leitura, o niilista me fazia pensar nas eleições presidenciais brasileiras. Na disputa de narrativas. Me peguei divagando e construindo diálogos entre figuras como Renan Santos e o presidente Lula. O “novo” e o “antigo”, a “moderna” e a “velha” política. O jeito do estudante me lembrava o do candidato do Partido Missão. Enérgico, confiante, intimidador. Crítico de tudo e todos. Com fieis seguidores – como Árkadi no livro – que tentam repassar os seus ensinamentos para um Brasil melhor. Do outro lado, vejo o presidente Lula – considero também outras figuras da velha política, como Ronaldo Caiado – que carrega consigo um passado, uma tradição. Ideias que podem ser consideradas ultrapassadas, mas que ainda são defendidas por muitas pessoas.

Acompanhando o contexto político atual, repasso cenas de Pais e Filhos e percebo o debate entre gerações. Da crítica efusiva de mudança em oposição à quem mantém o discurso de 24 anos atrás. Um Renan Santos imponente, com argumentos sólidos, mas que não aceita a visão do outro. Um Lula de falas ultrapassadas, uma esquerda que falha para atingir os novos eleitores, os quais não acreditam mais na tradição da velha política.

E onde entra Flávio Bolsonaro? Vejo nele uma mistura. Não sabe onde se encaixar. É Pai ao querer trazer o nome de Jair Messias Bolsonaro e carregar consigo o bolsonarismo – um movimento mais recente que o lulismo, mas que, para muitos, já é ultrapassado. E também o Filho, quando quer ser a mudança, defender um Brasil do futuro e coloca o petista na tradição do passado.

Assim, partindo para conclusão, trago algo do livro para reflexão. Bazaróv negava tudo. Se considerava, com uma ironia permanente, o mais sábio do recinto. Porém, ele se apaixonou pela viúva Anna Odíntsova. Incondicionalmente. Feriu aquilo que defendia com tanto afinco. Percebeu que a racionalidade não tinha como ser a formação de todo o seu ser. Então, apesar dos debates acalorados, dos vídeos revoltados e das disputas de narrativa, todos, sem exceção, carregam neles o Pai e o Filho, pois podem até defender uma política imparcial, porém – mesmo que inconscientemente – sempre trarão consigo um pouco da paixão. A paixão de esperança que crê nas conquistas e discursos do passado ou a paixão de esperança que quer um futuro distinto para o país.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Maria Eduarda Oliveira é Cientista Política e Diretora de Pesquisa da Cenário Inteligência

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