
Em abril de 1815, uma explosão de proporções extraordinárias reduziu em mais de mil metros a altitude do monte Tambora, na ilha de Sumbawa, atual Indonésia. Foi uma das maiores erupções vulcânicas da história registrada. Seus efeitos, porém, ultrapassaram as fronteiras do arquipélago e atingiram populações a milhares de quilômetros, que desconheciam a origem das alterações climáticas que começavam a enfrentar.
O Tambora atingiu o nível 7 no Índice de Explosividade Vulcânica, uma escala que vai até 8. A erupção destruiu povoados, devastou áreas agrícolas e provocou milhares de mortes, tanto diretamente quanto pela fome e pelas doenças que se seguiram. Estimativas históricas apontam dezenas de milhares de vítimas, embora os números exatos permaneçam incertos.
O fenômeno que alterou o clima mundial não foi simplesmente a quantidade de cinzas lançadas ao céu. A erupção também liberou enormes volumes de dióxido de enxofre, que alcançaram a estratosfera e se transformaram em minúsculas partículas de ácido sulfúrico. Esses aerossóis espalharam-se pela atmosfera e refletiram parte da radiação solar de volta ao espaço, reduzindo temporariamente a energia que chegava à superfície terrestre.
Em 1816, o efeito tornou-se particularmente perceptível em partes da Europa e da América do Norte. Durante meses que deveriam ser quentes, ocorreram geadas, nevascas fora de época e períodos de frio intenso. Na Nova Inglaterra, no nordeste dos Estados Unidos, houve registros de neve em junho. Plantações foram danificadas e agricultores enfrentaram dificuldades para produzir alimentos.
Na Europa, a situação foi agravada por chuvas persistentes, temperaturas baixas e colheitas insuficientes. Os preços dos cereais subiram, e diferentes regiões enfrentaram escassez e fome. O continente ainda sofria as consequências econômicas e sociais das guerras napoleônicas, encerradas em 1815, o que ampliou a vulnerabilidade de parte da população.
O resfriamento associado ao Tambora contribuiu para uma queda estimada em aproximadamente 0,4 °C a 0,7 °C na temperatura média global, embora os valores variem conforme o estudo e o período analisado. Parece pouco, mas uma alteração dessa magnitude na média do planeta pode modificar padrões de circulação atmosférica e aumentar o risco de extremos climáticos em determinadas regiões.
O ano de 1816 passou a ser lembrado como o “ano sem verão”. A expressão, entretanto, não significa que o verão tenha desaparecido em todo o mundo. As consequências foram desiguais, e o clima daquele período também sofreu influência da variabilidade natural e de outras erupções vulcânicas ocorridas nos anos anteriores.
O episódio deixou ainda uma curiosa marca na literatura. Durante o verão frio e chuvoso de 1816, Mary Shelley passou uma temporada nas proximidades do lago de Genebra, na Suíça, ao lado de outros escritores, entre eles Lord Byron. Reunidos frequentemente em ambientes fechados pelo mau tempo, participaram de um desafio para criar histórias de terror. Dessa experiência nasceu a ideia que daria origem a Frankenstein, publicado em 1818.
A história do Tambora revela uma conexão que a ciência só compreenderia plenamente muito tempo depois: uma erupção localizada pode desencadear alterações atmosféricas capazes de afetar o clima e a produção de alimentos em continentes distantes. Em 1816, milhões de pessoas sofreram os efeitos de um vulcão cuja existência muitas delas sequer conheciam.



