O Lar Não Fica em Lugar Nenhum (por Anushka Singh)

Sou uma imigrante Indiana morando no Canadá e, a cada dia que passa, me torno um pouco [...]

Sou uma imigrante Indiana morando no Canadá e, a cada dia que passa, me torno um pouco menos indiana sem me tornar nem um pouco mais Canadense. Estou aprendendo a pertencer a um lugar que não é meu, enquanto aos poucos perco partes do lugar que é.

Às vezes me pergunto por que fazemos isso. Por que deixamos os países que amamos, as culturas que nos criaram, as pessoas entre as quais nunca precisamos nos explicar?

No meu caso, foi o ar.

Eu amo a Índia. Amo o seu caos, as suas cores, a sua comida e o conforto de estar em um lugar que compreendo instintivamente. Mas nem sempre consigo respirar lá. Quando a qualidade do ar se torna perigosa, algo tão fundamental quanto respirar vira um cálculo. Me vejo presa entre duas impossibilidades: não consigo respirar no meu país, e não consigo me imaginar respirando sem ele.

Certa vez, perguntei ao meu melhor amigo, que é brasileiro, por que ele tinha deixado o país dele. Ele foi o primeiro brasileiro que conheci. Eu pensava no Brasil como um lugar vibrante, cheio de cultura. Por que alguém trocaria isso de livre e espontânea vontade por um lugar novo?

A resposta dele foi uma única palavra:

“Oportunidade.”

Nossas circunstâncias eram diferentes, mas chegávamos à mesma decisão: deixar nosso lar.

Costumamos falar da imigração como ambição, uma busca por universidades melhores, salários maiores e mais oportunidades. Mas o quanto disso é realmente uma escolha? É uma escolha quando ficar significa arriscar a própria saúde, ou quando o medo passa a fazer parte da vida cotidiana? Em que momento ir embora deixa de ser a busca por algo melhor e se torna uma fuga de algo que jamais deveria ter sido aceitável?

Fico pensando no que seria necessário para que pessoas como eu e meu amigo pudessem ficar.

Por trás do ar que respiramos, existem decisões sobre regulamentação ambiental, fiscalização e sobre a vida de quem vale a pena proteger. Por trás da segurança que buscamos, existem questões sobre responsabilidade pública e sobre o dever do Estado para com seus cidadãos. Esses não são apenas problemas sociais; são também questões sobre como as sociedades se governam e com que eficácia suas leis protegem as pessoas que deveriam servir.

A lei não pode, por si só, limpar o ar. Mas ela pode estabelecer obrigações, cobrar responsabilidade das instituições e dar às pessoas os meios para contestar as falhas de governança. A existência de um direito no papel é apenas o começo. O seu valor real está em saber se as pessoas conseguem usufruir desse direito no seu dia a dia.

Talvez seja aí que a mudança significativa comece: não apenas na criação de leis, mas na garantia de que sejam cumpridas, de que as instituições respondam por suas falhas e de que as políticas públicas reflitam as necessidades das pessoas que foram feitas para servir. O povo de um país não deveria ter que cruzar oceanos para encontrar o que suas próprias instituições deveriam ajudar a garantir em casa.

Sou grata pela vida que estou construindo no Canadá, mas a gratidão não apaga a dor da saudade. Ainda sinto falta de casa. Meu amigo também carrega consigo um país que escolheu deixar. Nenhum de nós consegue simplesmente substituir o que ficou para trás.

Não sei se um dia voltaremos. Mas não posso aceitar que ir embora precise ser a resposta inevitável às condições que tornam difícil permanecer. Quero acreditar que a lei, aliada a uma governança responsável e a uma ação pública transformadora, possa ajudar a tornar essa escolha possível novamente.

Talvez a verdadeira medida de um país não seja quantas pessoas sonham em deixá-lo, mas quantas podem se dar ao luxo de ficar.

Anushka Singh é graduada pela Universidade Dalhousie em Halifax, Canadá, onde estudou Direito, Justiça e Sociedade. Originalmente da Índia, ela se mudou para o Canadá aos 18 anos e atualmente trabalha como profissional da área jurídica na Nova Escócia. Sua experiência profissional no campo do Direito moldou seu interesse pela relação entre o direito, a justiça e as instituições que governam a sociedade. Ela se interessa particularmente por questões de responsabilidade pública, proteção dos direitos individuais e o papel do direito no enfrentamento de desafios sistêmicos.

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