
A vida é movimento. A experiência amplia seus caminhos.
Há uma diferença fundamental entre reconhecer sua história e continuar construindo a partir dela.
Ao longo da vida, acumulamos experiências, estabelecemos vínculos, fazemos escolhas e desenvolvemos competências. Algumas referências permanecem conosco por décadas, pois continuam em evolução oferecendo possibilidades de reflexão e transformação.
O que já foi vivido pode se transformar em recurso para compreender o presente e imaginar futuros e novos caminhos.
E a vida pode sempre nos surpreender.
Hoje recebi de um amigo uma notícia que me trouxe uma reflexão especial. Depois de muitas décadas de uma trajetória profissional brilhante, quando sua missão no mundo corporativo parecia concluída, ele inicia um novo capítulo, convidado a integrar uma grande organização de atuação global.
Não se trata simplesmente de voltar ao mercado. Trata-se de uma trajetória que mantém sua consistência e continuidade, encontrando novas possibilidades de contribuição, reconhecimento e desenvolvimento.
E me perguntei:
Por que tantas vezes confundimos maturidade com fim de ciclo, quando ela pode representar justamente uma nova perspectiva e nova qualidade de contribuição?
Muito se fala sobre as dificuldades enfrentadas pelos profissionais seniores. Existem barreiras reais, preconceitos e modelos de contratação que merecem ser questionados.
Mas há também outras realidades que precisam ser reconhecidas.
Diante de discursos dominantes, corremos o risco de nos acomodar a determinadas interpretações da realidade e, sem perceber, reduzir nossas expectativas e aceitar como inevitáveis limites que ainda não investigamos suficientemente.
Nesse movimento, podemos deixar de reconhecer nossa capacidade de rever convicções, ampliar conhecimentos e desenvolver novos recursos para a construção do futuro.
O tempo acumula vivências, amplia nossos interesses e transforma nossos pensamentos. Essas experiências podem se converter em conhecimento e, por meio da aprendizagem contínua, dar origem a novas competências.
Penso na minha formação profissional na IBM, onde iniciei minha vida no mundo corporativo e construí referências que permanecem presentes na minha relação com o trabalho até hoje.
Foi lá que, ainda muito jovem, aprendi a trabalhar, a compreender o valor do compromisso, da qualidade e da responsabilidade pelos resultados. A inovação, a agilidade de pensamento e a capacidade de ir além do já estabelecido eram condições para a evolução.
Convivi com profissionais admiráveis, cujas especialidades, competências e maturidade ampliaram minha compreensão das organizações, das relações humanas e do funcionamento da mente humana em seus diversos movimentos no ambiente profissional.
São referências que atravessaram décadas e continuam presentes nas minhas formas de ser e de compreender o trabalho, mesmo diante de mudanças estruturais cada vez mais exigentes e velozes.
No cenário de transformações extraordinárias que vivemos hoje, com os desafios da inteligência artificial, não basta valorizar o conhecimento acumulado. É preciso continuar desenvolvendo a capacidade de pensar, discernir e estabelecer relações entre o que já sabemos e aquilo que ainda precisamos compreender, questionar e criar.
A maturidade pode representar uma estrutura de conhecimentos, valores, relações e competências construída ao longo do tempo. Uma estrutura que, quando permanece flexível, crítica e aberta ao novo, pode sustentar projetos e desafios inesperados.
O verdadeiro valor da experiência está não apenas no que aprendemos, mas naquilo que continuamos capazes de transformar em pensamento, escolhas e realizações. E na capacidade de sustentar e ampliar nossos ideais e possibilidades.
Há experiências que nos preparam para realizar o que planejamos. E outras que nos permitem reconhecer possibilidades que sequer imaginávamos.
Porque uma história construída não é uma história concluída.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



