
A filosofia nos atrai para a profundidade do nosso ser, principalmente quando nos dispomos a uma boa conversa.
Foi exatamente isso que aconteceu em um sábado: um diálogo com meu amigo Silvio me levou à questão: o futuro não existe?
De fato, o que existe é o presente, o agora, que, em algumas centelhas de tempo, torna-se passado. Já o futuro, por si só, não existe.Ao pesquisarmos, identificamos em algumas culturas, principalmente entre os povos originários, uma visão diferente daquela com a qual conduzimos a vida. Os Aymara (nos Andes, entre Bolívia e Peru), por exemplo, possuem uma concepção invertida do tempo. Diferente da visão ocidental — onde o futuro está “à frente” e o passado “para trás” —, os Aymara acreditam que o passado, por ser conhecido e visível, está à frente deles. Já o futuro, por ser desconhecido e invisível, localiza-se atrás, nas suas costas.
Pode parecer uma reflexão inusitada, mas um dos grandes males que vivemos é o excesso de futuro. Sem saber se estaremos lá, desperdiçamos o presente em função de algo que não existe.
“Mas, Aldeir Ferraz, não devemos nos preparar para o amanhã, garantir o nosso pé de meia, sonhar e buscar um tempo melhor?”
A questão pode ser respondida com outra indagação: será que esse futuro que tanto almejamos não nos tem feito negligenciar o presente e renegar o passado?
Quem sabe possamos, enfim, entender que o futuro é ancestral.
Bom, essa é uma conversa que rende muito futuro, ainda dá muito pano para a manga.
Aldeir Ferraz é Político e Escritor



