Debate de Neobobos? (por Ariosto da Silveira)

Largo di Torre Argentina. O nome não é homenagem ao país de Jorge Luís Borges, Gardel e [...]

Largo di Torre Argentina. O nome não é homenagem ao país de Jorge Luís Borges, Gardel e Messi, mas simplesmente designa prata ou prateado, em italiano.  Espaço repleto de ruinas do império romano. Era ali o Teatro Pompeu, onde no ano 44 antes de Cristo os senadores (“Até tu, Brutus?”) deram fim a Júlio César, aos 55 anos de idade. Panorama do passado, poucas colunas ainda de pé, umas árvores franzinas, ares de abandono, um bando de gatos gorduchos pelo bom passadio garantido pelos humanos locais e migalhas jogadas por turistas.

Entro na tradicional Livraria Feltrinelli, já conhecida e admirada por seu acervo extraordinário de livros e discos. Logo encontro um CD da “Missa para o Papa Marcelo”, de Palestrina, renomado compositor da Renascença. Em outra banca, um livrinho cujo autor conhecia de passagem. “Direita e Esquerda”, de Norberto Bobbio (1909/2004), que naquela altura era lido, ou no mínimo citado, por integrantes do governo brasileiro. Edição original, em italiano, mas não me abati, pensando em me socorrer com minha mulher, Marly, então no final do curso da Fundação Torino.  De tão magro, o livro coube no bolso do casaco, mas ali estava boa parte do pensamento de um dos mais respeitados escritores, rotulado progressista ou esquerdista, daí criticado duramente pelos conservadores.

Sabia que o pensamento de Bobbio tinha a ver com o nosso presidente-sociólogo Fernando Henrique Cardoso, naqueles dias gozando as delícias da glória por conta do êxito do Plano Real, que, ao contrário de experiências anteriores, iria permanecer por décadas. Mas tinha um fio de curiosidade quanto à divergência deles na visão do fenômeno político. Logo localizaria o ponto divergente: FHC considerava o debate sobre direita e esquerda coisa do passado; para Bobbio, no entanto, era tema reintroduzido pela globalização e por isso devia entrar em debate.

Anotando estar o dilema direita-esquerda ressuscitando no Brasil, FHC ironizou dizendo ser discussão entre “neobobos”, pois a opção se perdera no tempo. É possível imaginar que sua posição decorresse de as posições de situacionistas e oposicionistas não terem a maturidade da discussão na Europa, onde se deslocava do ambiente acadêmico para a versão pragmática em relação aos benefícios ou carências deles. Portanto, entendia ser debate estéril e fora de época, apenas retórica dos contrários.

Pinçados hoje estratos das ideias de Bobbio quanto ao dilema, uma conclusão clara está nas últimas linhas de seu pequeno livro: nem direita nem esquerda apresentaram e executaram uma fórmula para acabar com as desigualdades sociais. O que ele projetava era uma democracia liberal, num clima de diálogo racional. Em resumo, igualdade entre e para todos.

Nesta campanha eleitoral, muito antecipada frente ao calendário legal, não escapa da maioria dos pronunciamentos a condição de conflito entre direita e esquerda, mas não aparenta situar-se a divisão no campo ideológico propriamente. É governo de um lado contra oposição de outro, um objetivando a manutenção e o outro a reconquista do poder, sem profundidade, bem podendo ser comparada à conversa de “neobobos” de Fernando Henrique Cardoso.

Debate no geral sem substância, pirotécnico, apenas para atrair a plateia. As ideias e promessas jogadas ao vento na maioria silenciarão esquecidas quando as urnas cantarem.

Ariosto da Silveira é jornalista e advogado. Autor de “Eternamente – Esboços da Itália” (2003)

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