Da Maria-Fumaça às Redes Sociais (por Ariosto da Silveira)

Assim o poder político mineiro vai mudando de lugar e quebrando tradições [...]

Símbolos do poder político mineiro, sob tombamento histórico. São dois solares, belos casarões coloniais a menos de mil metros um do outro. Num deles, os Andradas seguram a tradição nascida ainda nos tempos imperiais, com o patriarca José Bonifácio, passando por figuras igualmente influentes como Andradinha, constituinte que quase conseguiu introduzir o parlamentarismo na Constituição de 1988. No outro, os Bias Fortes, no poder desde o avô, em cujo governo Ouro Preto cedeu o lugar de capital para Belo Horizonte. Em dado período o clã foi representado por Biazinho, a quem coube participar da união impossível entre os maiores rivais da política mineira: de legítima linhagem pessedista, foi secretário de Segurança do genuíno udenista Hélio Garcia, também ele atuando fortemente para romper o arraigado antagonismo entre os dois partidos.

Boa parte da história mineira passou pelos dois solares de Barbacena. Até a Inconfidência. Acentuando a sua identidade, as duas famílias dividiam o tempo, no passado, entre as respectivas fazendas e os casarões na cidade. Do jeito encontrado e descrito por Auguste de Saint-Hilaire nas três vezes em que percorreu terras mineiras no início do século dezenove. As melhores casas da cidade pertenciam aos ricos proprietários rurais – os coronéis da política -, algumas ocupadas apenas em período de festas, registrou o naturalista francês.

Mas o poder político concentrado em Barbacena fez uma viagem imaginária. Pegou a maria-fumaça da Estrada de Ferro Oeste de Minas, mais tarde designada Rede Mineira de Viação (“ruim mas vai”), que passou por ali pela primeira vez em 1880, vindo da vizinha Antônio Carlos, então chamada Sítio. Sem pressa, o trem margeou os rios das Mortes, Boa Vista e Itapecerica, cruzou São João del-Rei, Oliveira, Carmo da Mata, soprando fumaça, apitando, realimentando-se de lenha e se resfriando em sucessivas caixas-d’água de beira-linha. Após uns duzentos quilômetros e umas sete ou oito horas, parou na plataforma de Divinópolis.

Mas nessa viagem de fantasia encontrou não mais uma cidade apenas florescente, onde os poderosos eram capitães de indústria nas dimensões locais, como Jovelino Rabelo, pioneiro não somente na siderurgia, mas em vários outros setores. Na política apareciam sobrenomes como Rabelo, Notini e Mourão. No entanto, um corte à moda cinematográfica revelaria agora novo centro do poder de Minas: de uma pancada, nas eleições de 2026 dali saíram três Azevedos – um governador, Cleitinho, um irmão deputado federal, Gleidson, e outro estadual, Eduardo – e ainda uma deputada federal com uma fartura de votos, Ana Elisa. Para completar, o ex-prefeito Domingos Sávio arrebanhou a maioria dos votos para o Senado.

Se o trem imaginário continuasse, não mais como a bitolinha da RMV, mas na bitola de metro da Centro-Oeste, encontraria em Belo Horizonte outra mudança. O Palácio da Liberdade, símbolo e tradição de partido mais importante de Minas, segundo os políticos tradicionais, perdera a influência. Transferida a sede do governo para a Cidade Administrativa, o palácio ganhou a cara de museu para visitas dominicais e atos diversos nos seus jardins. Votos não garantiu mais. O penúltimo ocupante, Romeu Zema, ficou em sexto lugar na disputa presidencial e seu sucessor, Mateus Simões, amargou uma quarta posição na tentativa de reeleger-se.  Para completar, outro antigo hóspede palaciano, Aécio Neves, não passou do sétimo lugar entre os concorrentes às duas vagas de senador.

Assim o poder político mineiro vai mudando de lugar e quebrando tradições. Sem o trem de ferro, transformado em saudosas lembranças, viaja agora na velocidade das redes sociais.

Ariosto da Silveira é Jornalista e Advogado

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