
Professores nunca morrem. Vivem para sempre. Eles já estavam lá quando cheguei. Continuaram lá quando fui embora. Alguns me ensinaram alguma coisa.
Outros, nem tanto.
E a maioria eu nem cheguei a conhecer de verdade. Nem eles a mim. Ainda assim, por algum tempo, acreditei neles.
Com o tempo, a vida faz seu trabalho. Descobrimos que os ídolos são feitos da mesma matéria-prima que nós: dúvidas, erros, acertos, medos e algumas teimosias. Alguns caem do pedestal. Outros apenas mudam de tamanho.
E há aqueles que permanecem porque deixaram marcas. Ainda bem.
Tive sorte. Entre tantos professores, encontrei um que atravessou a sala de aula e se aproximou do moleque que sentava na última carteira.
Meu professor de Literatura no Segundo Grau, como se dizia naquela época, Ozanir Roberti Martins.
Ele me apresentou livros, autores, poemas, personagens e me viciou em Brasil. Mas hoje desconfio que essa era apenas a parte visível da aula.
A literatura era o caminho.
O plano, talvez, fosse outro.
Me ensinou, meio sem querer, a olhar o mundo com mais curiosidade.
A desconfiar das certezas absolutas.
A perceber que as palavras têm música, dança e, às vezes, silêncio.
Mas fez algo ainda mais importante.
Acreditou em mim.
A vida me apresentou uma multidão de especialistas em impossibilidades. Gente que sabe exatamente onde você não vai chegar e por que determinada ideia não dará certo. São muitos.
E, curiosamente, quase sempre têm muita certeza de que quase nada sabem.
Os que enxergam possibilidades são mais raros. Roberti é desses.
Hoje, quando a memória abre um livro qualquer, encontro seu nome em várias páginas. Não apenas nas que falam de literatura, mas também nas que falam de confiança, generosidade e daqueles encontros que ajudam a moldar quem nos tornamos.
E há uma coisa bonita nesta história: posso escrever sobre ele sem transformar a homenagem em despedida. Posso agradecer enquanto ele ainda pode saber que deixou alguma coisa importante em alguém.
Talvez essa seja uma das injustiças da vida: percebermos tarde demais a importância de algumas pessoas. E, muitas vezes, elas nunca ficam sabendo. Valeu, Roberti. Tomara que essa mensagem te alcance.
Obrigado por ter enxergado alguma coisa em mim quando eu ainda estava tentando descobrir o que havia para enxergar.
Os verdadeiros mestres ampliam o mundo de quem aprende.
A vida seguiu.
A lição ficou.
Alguns professores dão vidas às aulas.
Outros são a própria.
Raul Filho é Professor, Geógrafo, Doutor em Sociologia da Educação



