COLUNA RONALDO HERDY

CPF não herda biografia

Nem sempre o sobrenome entrega o destino.

A Operação Castratio, deflagrada na semana passada pela Polícia Federal para investigar suspeitas de fraude em licitações ligadas à Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Rio de Janeiro, colocou sob holofote um personagem conhecido da política fluminense: o deputado federal Marcelo Queiroz (PSDB).

Os agentes apreenderam o celular do parlamentar no Aeroporto Santos Dumont, quando ele embarcava para Brasília – uma cena que, convenhamos, costuma render mais desconforto do que despacho de bagagem.

Importante dizer: investigação não é sentença. A operação apura suspeitas e cabe à Justiça separar, com provas e devido processo, fato, versão e responsabilidade.

Mas a história ganha um contraste inevitável quando se olha para a trajetória familiar.
Marcelo é filho de Cid Heráclito de Queiroz, procurador de carreira que comandou a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional por mais de uma década e participou da formulação da Lei de Responsabilidade Fiscal, além de integrar comissões dedicadas à reforma tributária e financeira nos tempos do governo Sarney.

É daqueles personagens do serviço público cuja biografia costuma ser lembrada pela engenharia institucional, não pelo noticiário policial.

E aí a velha frase – “tal pai, tal filho” – encontra seus limites.

O CPF continua sendo documento individual. Virtudes não se transferem por genética, assim como suspeitas também não deveriam. Resta ao deputado responder aos fatos investigados e às autoridades. E à opinião pública, mais uma vez, o incômodo espetáculo brasileiro de ver sobrenomes respeitados cruzando corredores onde a reputação e investigação caminham lado a lado.

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