Cem Anos de Lucidez (por Vera Helena Castanho)

Escrevo sobre alguém que tem nome, história e rosto: minha mãe, que completou 100 anos nos últimos dias. [...]

Escrevo sobre alguém que tem nome, história e rosto: minha mãe, que completou 100 anos nos últimos dias.

Em um país desigual como o nosso, sei que a longevidade não é distribuída de forma equânime. Sei também que envelhecer com autonomia não é realidade para todos. Ainda assim, reduzir uma vida centenária à ideia de privilégio seria ignorar as camadas invisíveis de sofrimento, perdas e reconstruções que nenhuma estatística captura.

Este texto não nega a realidade social. Ele afirma uma experiência concreta de resistência, sentido e lucidez.

Cem anos de vida com saúde, dores e autonomia.

Não escrevo apenas sobre um aniversário. Escrevo sobre o que significa chegar aos 100 anos no Brasil de hoje: lúcida, interessada, conectada e participando da vida.

Cem anos não são apenas tempo.
São escolhas feitas todos os dias para continuar presente, viva.
São manhãs começadas antes mesmo do sol nascer.
É a fé vivida no cotidiano.
É a família reconhecida como o amor maior.
É a convivência corajosa com o inesperado.
É o cuidado amoroso com o neto adulto que acorda feliz todo fim de semana na casa da avó e que encontra ali referência, constância e alegria.

Falamos muito sobre envelhecimento como sinônimo de perda. Mas pouco falamos sobre envelhecer como decisão ativa.

Aos 100 anos, é possível:

– Escolher a celebração online que se quer assistir, em qualquer geografia;
– Conversar diariamente pelo WhatsApp com filhos, netos espalhados pelo mundo e reencontrar amigos de décadas, amigos de infância;
– Fazer novas conexões e relembrar a “São Paulo do meu tempo”;
– Buscar receitas, crochê ou notícias no YouTube;
– Discutir política com indignação e filosofia com curiosidade;
– Frequentar academia com disciplina, encantando o personal com sua performance;
– Acompanhar a própria saúde com autonomia;
– E continuar tendo opinião e vontade próprias.

É possível envelhecer com dignidade, humor e autonomia.

Depois de perdas imensas, inesperadas e profundas, há quem paralise. Há quem se retraia. Mas há também quem siga. Quem continue pensante. Quem sustente vínculos. Quem acolha. Quem pratique o amor não como discurso, mas como gesto cotidiano de força e compaixão.

Viver com presença é força. É decisão. É reconhecer a dor inevitável que atravessa qualquer vida humana e, ainda assim, desperta mais sábia no dia seguinte.

Sofrimento não se mede apenas por renda ou recursos. Há dores que atravessam todas as classes: lutos irreparáveis, ausências definitivas, desafios familiares profundos, reinvenções silenciosas. A longevidade lúcida não é ausência de fragilidade. É presença fortalecida por sentidos ressignificados.

O Brasil está envelhecendo muito rápido. Precisando lidar, com urgência, com essa geração que chega aos 90 e aos 100 anos não como resíduo estatístico, mas como presença ativa. Isso exige políticas públicas. Exige infraestrutura. Exige redes de cuidado. Mas exige também mudança cultural.

Velhice não precisa ser apagamento.
Pode ser potência.

Cem anos não são apenas uma marca no tempo.
São a prova de que presença é decisão interna, impulso contínuo para a vida, mesmo diante de realidades desafiadoras, doloridas e injustas.

Que Deus siga acolhendo suas orações, minha mãe.
E que nós nunca deixemos de pedir:

Vó, reza por nós.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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