
Estive pensando em processar a Prefeitura de Belo Horizonte. Por desapiedar o coração da cidade. E transformar a Praça Sete nas fossas Marianas da indiferença.
Lamento não contar mais com a sabedoria do professor Raul Machado Horta. O jurista diria se é causa litigável solicitar indenização por mergulho forçado nas profundezas abissais da descompaixão.
Na escuridão de 30 de setembro, vésperas do primeiro turno das eleições de 4 de outubro, um público de cabeça prateada deixou o auditório de Câmara do Cine Theatro Brasil.
Empolgado, como se o Brasil fosse a lavra da fraternidade. O bamburro da felicidade. Quase dez da noite.
Balançados pelas meninas do Carona Brasil – Rosana Tunes, Cássia Mattiello e Carol Viana, os veteranos sapecas divertiam-se com a trama do samba Galo e Cruzeiro.
“Minha Preta não fala comigo
desde primeiro de janeiro.
Ela me deu a mala, eu fui dormir na sala,
fiquei sem dinheiro.
Não tem mais feijoada, nem vaca atolada,
rabada ou tropeiro.
Já fez greve de cama, diz que não me ama,
quebrou meu pandeiro.
Na hora do cruzamento, ela deu impedimento
ou falta no goleiro.
Pra aumentar meu tormento, meu irmão,
eu sou Galo e ela é Cruzeiro.
As cantoras celebravam duas décadas de Música Popular Brasileira. Afinadas na paixão e no repertório. Elas fecharam o espetáculo Coletâneas, com a composição de Vander Lee sobre quem manda no barraco mineiro. De tom para cima e dançante. Como Maria, Maria, a canção usada invariavelmente, na hora do bis, por Milton Nascimento, no encerramento das apresentações no Palácio das Artes.
Na saída do teatro, caiu o pano. O público, de bem com a vida, foi atingido por um murro no olho. Um golpe com a crueza descrita no manual da derrota política em Minas com os dizeres catastróficos além de coice, tombo.
Três dezenas de sem teto estendem-se no cimento da praça, inaugurada em 1922, no centenário da Independência. Do lado do antigo Café Nice, um apagão de civilização. À direita, atravessada a Avenida Amazonas, cadê a câmera da TV para registrar o dormitório dos marginalizados?
Acocorados sob caixas de papelão no quarteirão lateral, de nome Maxakali, homens e mulheres ressonam encostados no edifício bossa-nova do Bemge, desenhado por Oscar Niemayer.
Ratazanas desfilam entre os pedestres. Brincam de ciranda, debochando do obelisco à distância.
Ninguém se assusta. Nem se importa com os desventurados da Praça do Pirulito. O prefeito finge que não vê. O governo, também.
Vêm-me as imagens de Moçambique em 1991. Éramos três: Taís Leão, Aluísio de Assis e eu. Carros de combate da ONU, encimados por um artilheiro de boina azul, patrulham a rodovia que liga nações africanas sem mar ao porto de Beira, no Oceano Índico, na província de Sofala. Os comboios percorrem indiferentes os campos de refugiados da guerra civil que destroçava o país de Mia Couto.
Caminhando pela região, reclamei a falta de um repórter. Da sensibilidade do Mauro Santayana, para expor as chagas da desumanidade. Santayana, meu chefe na Sucursal de O Globo, internou-se, quando jovem, no Instituto Raul Soares. Queria denunciar os maus tratos aos doentes mentais.
Falta um jornalista atrevido como Ponce de Leon, do jornal Última Hora. Ele pulou a janela, de vidros quebrados, da Igrejinha de São Francisco. Com a cumplicidade do fotógrafo Euler Cássia, meu colega no Estadão.
Em 1961, Ponce de Leon roubou, à luz do dia, um dos 14 quadros da Via Sacra de Portinari. Sua audácia escancarou o desleixo das autoridades com a obra de JK e Niemayer na Pampulha. O prefeito Aminthas de Barros jamais os perdoou.
Talvez, falte, mesmo, é uma Madre Teresa de Calcutá. Que socorra os intocáveis das ocupações urbanas.
Mas temo que nem a freira albanesa, feita santa pelo Papa João Paulo II, dê conta de repetir entre nós seu trabalho missionário realizado nos guetos infectos da Índia. As barracas multiplicam-se no ritmo desavergonhado dos patinetes eletrônicos que nos atropelam nas calçadas, sob as vistas complacentes das autoridades.
Aqui, uma xará paulista, a Madre Teresa de Jesus Eucarístico, empresta seu nome a um hospital particular que não realiza atendimentos pelo SUS. Limita-se a atender a planos de saúde das maiores empresas, como Vale, Banco Central do Brasil, Bradesco, Petrobrás, Itaú e a padres e freiras de congregações religiosas.
As irmãzinhas, porém, nunca desistem da assistência espiritual. Pelo menos, acontecia assim em Mariana, segundo relata o escritor Danilo Gomes, decano da Academia Mineira de Letras, titular da cadeira de número 1.
Aos 83 anos, Danilo lembra-se do China, verdureiro de fino trato e fala enviesada. Em O Chinês de Mariana, o acadêmico traz à cena o asiático das suas memórias de menino, que apareceu, sem explicações e sem passaporte, na Cidade dos Bispos.
“As irmãs do Colégio Providência, lideradas por irmã Luísa, empenhavam-se na catequese do China. Visitavam-no e davam-lhe aulas de catecismo. Queriam batizá-lo, mas ele ficava irredutível’.
Assustaram-no, quando adoeceu gravemente. Precisavam salvar a alma do vendedor de saúde, de folhas e legumes. “Olha, China, o inferno é um lugar horrível. Lá só se vê fogo e caldeiras de água fervente”.
Quem haveria de resistir a aquele fogo abrasador e eterno?
O chinês pagão, cabisbaixo e pensativo, respondeu convicto:
– Ó ´mã, cum tu gi cutum.
Tradução, que viralizou na velha Ribeirão do Carmo:
– Olhe, irmã, com tudo a gente acostuma!
China tinha razão. Após 300 anos de escravidão, senzala e casa grande, genocídios indígenas, Canudos, corrupção, golpes políticos, apagão moral e “dálits” na Praça Sete, nada nos impressiona.
Atordoados, os pedestres tropeçam em monturos e em cartazes de propaganda eleitoral. Desequilibram-se. Relutam, mas seguem o caminho. Afinal, a Praça Sete é apenas um recorte fotográfico do imenso acampamento de lonas pretas que ocupa as ruas da capital.
A gente se acostumou.
J.D. Vital é confrade de Andreia Donadon Leal, Anício Chaves e Danilo Gomes na Academia Marianense de Letras



