Alternar o PODER será suficiente para mudarmos o nosso destino? (por Luiz Alberto Cureau Júnior)

Um país continental não pode tratar sua proteção como despesa adiável e depois se surpreender com a dependência externa [...]

As urnas redesenham o cenário político, mas não modernizam um país sozinhas. A nova composição do Congresso e a possibilidade de alternância na Presidência abrem espaço para rever prioridades. Para a indústria de defesa e as Forças Armadas, a pergunta é direta, essa oportunidade produzirá capacidade ou apenas novos discursos?

A mudança significativa começa quando defesa deixa de ser assunto restrito aos quartéis e passa a integrar o projeto nacional. Segurança, tecnologia, indústria e diplomacia precisam conversar. Um país continental não pode tratar sua proteção como despesa adiável e depois se surpreender com a dependência externa.

O novo cenário pode favorecer essa aproximação. Senadores e deputados influenciarão orçamento, legislação e fiscalização. Entretanto, disposição política precisa virar compromisso. Não basta defender a soberania na tribuna e esquecer seus instrumentos na votação dos recursos.

Por isso, o trabalho deve começar antes de janeiro. Empresas, centros de pesquisa e instituições militares podem apresentar uma agenda convergente, prioridades, projetos, custos, prazos e resultados. O objetivo é chegar a 2027 com propostas maduras, para orientar decisões no início do governo.

O Orçamento de 2027 exige atenção da legislatura atual. Preservar programas e sustentar manutenção, pesquisa e produção é preparar o terreno. A partir de fevereiro, o novo Congresso poderá aperfeiçoar instrumentos e construir compromissos que atravessem mandatos.

Uma possível mudança no Ministério da Defesa será relevante se trouxer articulação, visão e capacidade de execução. O desafio é integrar necessidades das Forças, capacidade industrial e limites fiscais. Trocar o titular sem mudar a qualidade da gestão apenas renova a fotografia.

Na diplomacia, novas ideias podem aproximar política externa e desenvolvimento. Embaixadas devem ajudar a abrir mercados, promover produtos de defesa e negociar cooperação tecnológica. Parcerias precisam ampliar conhecimento e autonomia. Relações internacionais se medem pelo que entregam ao Brasil.

À indústria cabe demonstrar como seus projetos geram empregos, inovação e capacidade produtiva. Às Forças Armadas, definir prioridades e sustentar prontidão, formação e retenção de especialistas. Ao governo, assegurar coordenação e previsibilidade. Ao Congresso, transformar essa agenda em decisões e cobrar entregas.

A alternância permite corrigir rumos sem desperdiçar o que funciona. A maturidade está em preservar capacidades, superar gargalos e fazer a defesa avançar como política de Estado.

Em 2027, somente mudar os ocupantes das cadeiras será insuficiente.

É preciso mudar o destino das decisões.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor em Defesa e Clima

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