
O livre-arbítrio costuma ser tratado como uma porteira emperrada: ou abre totalmente, ou prende a passagem. De um lado, ficam os que acreditam que decidimos a própria rota. Do outro, os que enxergam em cada evento apenas o empurrão final de forças anteriores a nós. A vida não atravessa fendas de modo tão previsível. Força passagens, entorta trancas, pula cercas. O caminho de nenhum rio é reto. Entre a ideia de que somos totalmente livres e a de que tudo já está escrito, abre-se um espaço menos óbvio: uma margem intermediária.
As ideias materialistas mais reducionistas conduzem facilmente ao entendimento de que tudo é determinado. O mundo físico se arranjaria obedecendo a leis; a biologia emergiria da química; a mente, da biologia; e nossas decisões seriam apenas o último elo visível de uma cadeia remota de acontecimentos que condicionam os próximos. Na direção oposta, muitos percebem na aparente liberdade humana de decidir uma prova de que cada indivíduo determina seu próprio caminho. E pronto. Ambas as visões parecem bastante engessadas para um universo visualmente plástico, alternando, no tempo e no espaço, destruição e rearranjo, contrações e expansões — respirações.
A imagem do universo em bloco, reforçada pela relatividade e pela ausência de um presente universal, tem suas razões: passado, presente e futuro podem ser tratados como regiões de um espaço-tempo de quatro dimensões, e Einstein chegou a escrever que a distinção entre eles era uma “ilusão persistentemente teimosa”. Ainda assim, transformar essa elegância matemática numa anulação do tempo não chega a lugar algum e pode bloquear melhores ideias. A relatividade corrige nossa intuição de simultaneidade; daí não decorre autorização para decretar que a passagem, a mudança e a irreversibilidade sejam meros enganos psicológicos. O tempo pode ser mais estranho do que sentimos, menos absoluto do que Newton imaginava, dependente da geometria, da entropia, da informação e do referencial. Parece ser emergente e continua aparecendo em todo lugar onde algo se altera, evolui, decai, aprende, lembra, sofre ou morre. Se tudo no universo está em constante mutação, a palavra “ilusão” parece confortável demais: uma saída esperta e frustrante ao mesmo tempo para o que ainda não sabemos formular. Muitos aspectos da natureza são emergentes, mas o que emergiria em um bloco estático? O tempo, ao menos para seres como nós, é a taxa viva da transformação, o modo como a existência deixa de ser uma bela pintura e se transforma no ato de filmar. O elo. A possibilidade de reconhecer relações entre causas e efeitos. A chance de coerência. Uma abertura mínima para liberdade.
Mas que tipo de liberdade pode existir dentro de um mundo atravessado por causas?
Existimos numa escala intermediária, entre regimes muito diferentes da realidade. Na grande escala, o mundo apresenta regularidades impressionantes. As leis físicas permitem compreender o movimento dos corpos, prever eclipses, calcular órbitas, enviar sondas a planetas distantes. Há uma obediência no comportamento da matéria, uma fidelidade que serve de fundação para o cosmos. Eis o esqueleto, tratemos agora dos músculos.
Na escala menor, não há engrenagens embutidas como num relógio suíço do século retrasado. Na base da realidade, surgem trajetórias previsíveis ao lado de eventos descritos por probabilidades. Certas propriedades nem podem ser medidas simultaneamente com precisão plena. Quanto mais sabemos de uma, menos sabemos da outra. Incerteza, batizaram. A existência, quando vigiada de perto demais, responde da maneira mais sensata, com uma espécie de reserva.
No balanço dessas duas escalas nos equilibramos, a meu ver, com pequena capacidade de determinar o rumo da navegação através de sucessivos pequenos ajustes dependendo dos acontecimentos.
Nada disso prova cabalmente o livre-arbítrio. Um elétron indeterminado não escolhe. A incerteza física não se transforma, por milagre, em vontade humana. Ela enfraquece, no entanto, a pretensão de imaginar o universo inteiro como uma sentença já escrita em todos os detalhes. O que seria muito sem graça para uma realidade tão abundante e surpreendente. Gestante. Não que o universo precise obedecer à sede humana por significado. O mundo tem regras, causas e limites, claro. Mas também parece deixar algum espaço para instabilidade, desvio e surpresa.
Estamos comprimidos entre duas estranhezas: acima de nós, a regularidade imensa dos astros; abaixo, a névoa probabilística da matéria. O ser humano, no meio do caminho, encontra-se curiosamente um pouco mais próximo do tamanho do universo observável do que do comprimento de Planck (menor pedaço que faz algum sentido destacar). Uma constatação para ser tomada mais como imagem de pensamento do que como graduação do que é determinável. Pode indicar apenas que nossa existência ocorre numa zona onde causas se acumulam, padrões emergem, hábitos se consolidam e alguma participação ainda parece razoável.
Uma pequena alteração pode permitir desdobramentos futuros inimagináveis já que estamos lidando com tempo e espaço aparentemente infinitos. Uma nadadeira direita que seguidamente trabalhe, enquanto a esquerda permanece parada, permite ao peixinho humano um giro de 180 graus e a chance de nadar contra a correnteza. Cazuza diria: “só para exercitar”.
Em Carmina Burana, Carl Orff resgatou textos medievais ligados à roda da Fortuna: tudo gira, sobe, cai, passa, se altera. A imagem da ocasião com cabelos na fronte e calva depois de passar provoca nossa ideia de intervenção oportuna. O instante novo é cabeludo; o instante perdido, careca. A participação exige presença; depois, resta apenas a nuca lisa do acontecimento. (Verum est, quod legitur: fronte capillata; sed plerumque sequitur Occasio calvata).
Aliás, uma das grandes obsessões humanas é trabalhar para sentir que suas ações alteraram o destino, mesmo quando tornam momentaneamente suas vidas mais difíceis, mesmo conscientes de que alcançar posições mais elevadas pode facilitar direcionar, mas não garante coisa alguma. Muitos inclusive praticam a autossabotagem como forma de continuar a participar da realidade que compreendem, de estarem sempre em movimento, em compasso com o tempo e não no final de algo, ainda que supostamente vencedor. Dostoiévski realça esse aspecto com brilhantismo em “Memórias do subsolo”.
A grande ilusão humana é acreditar que decidimos totalmente o que fazemos. Se alguém quisesse cometer uma atrocidade, mesmo sabendo que sofreria depois as consequências, poderia imaginar que a decisão esteve inteiramente sob seu controle. O determinista combate essa impressão lembrando que nenhum gesto nasce do nada. Há genes, temperamento, história familiar, infância, traumas, hormônios, pobreza, cultura, medo, desejo, hábito, linguagem. Há uma multidão de detalhes dentro de cada decisão. A confluência de várias ondas, cancelamentos e amplificações, formando a onda maior.
Quando começamos a entender melhor a mente humana, a potência da consciência fica ainda mais abalada. Ela não é a comandante absoluta e na maioria das vezes atua apenas como observadora. Processos inconscientes preparam escolhas antes que possamos dizer que são nossas. A neurociência não bateu o martelo em relação ao problema da liberdade. Enfraqueceu, porém, a imagem ingênua de um “eu” eternamente deliberando de modo puro e transparente. Um eu destacado das interferências do mundo decidindo acima das ocorrências.
Para completar nossa angústia, surge a suspeita de que, quanto mais tudo for determinado, menos alguém pode ser responsabilizado. Cada gesto dependeria de nexos causais anteriores, sutis, remotos, possivelmente inevitáveis. A culpa, o mérito, o arrependimento e a honra seriam apenas nomes humanos para mecanismos que desconhecem a si mesmos.
Pensar assim, para um ser humano, é doloroso, quase impraticável. Sentimos que escolhemos. Vivemos como quem decide. Cobramos dos outros atitudes melhores. Tentamos educar, corrigir erros, vencer vícios, construir obras, reparar danos. Nenhuma sociedade sobreviveria tratando todos os atos como fenômenos naturais. Um assassinato não pode ser recebido como chuva. Uma traição não se arquiva como mudança de pressão atmosférica.
No aspecto criativo, o homem quer realizar e se sentir responsável pela obra que, em sua trajetória singular, pôde oferecer ao mundo. Ainda que não controle as cartas que recebe, precisa jogar. Ainda que não tenha escolhido o tabuleiro, move peças. A liberdade aparece na participação possível dentro do rumo tomado por aquilo que nos atravessa. É um casamento, não um desenho. Pode gerar diferentes filhotes.
Uma das grandes esperanças humanas é que exista, ainda que em pequena medida, algum grau de livre-arbítrio: a capacidade de, no calor dos acontecimentos, intuir um rumo, suspender um impulso, rever uma tendência, escolher uma resposta melhor do que a primeira que nos veio. Uma liberdade estreita, difícil, conquistada dentro das condições dadas. Muito diferente das liberdades já imaginadas como divinas, sem causas ou capazes de tornar irrelevante a história.
Tal como no universo quântico, no mundo humano, algumas possibilidades parecem disputar a chance de emergir. Nem todas dependem de nós. Algumas já chegam quase vencidas; outras mal conseguem respirar. Certos caminhos se tornam mais prováveis quando decidimos dar um passo após o outro. Visto desse modo, o destino não seria uma linha já desenhada, mas um conjunto de tendências, pressões e oportunidades que vão se combinando. Nele, nossa participação inventa pouco, interfere em algo e se recusa a desaparecer como detalhe descartável.
E tem outra. Ainda que o determinismo absoluto fosse verdadeiro, a mera crença na possibilidade de agir alcançaria força prática. A confiança pode funcionar como mecanismo criador. Ao acreditar que pode fazer algo, o indivíduo reorganiza sua leitura dos fatos, reúne bravura, sustenta uma decisão por mais tempo, transforma circunstâncias que antes pareciam apenas externas. A escolha, por menor que seja, participa do desenho final da história, sem que precisemos negar as limitações. Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo não sabe se fez ou não um pacto, e a leve incerteza aos poucos, alimentada por coincidências significantes, é substituída pela ideia de que tudo realmente aconteceu. Tomado então de confiança reforçada, passa a comandar o destino do sertão. O tipo de fé que move montanhas, homens e instala o novo.
Entre o que acontece e o que fazemos com o que acontece, abre-se a estreita vereda da liberdade.
Epicteto e Viktor Frankl tocaram nesse ponto. O primeiro, ex-escravo e filósofo estoico, insistiu na diferença entre o que depende de nós e o que não depende. O segundo, psiquiatra judeu e sobrevivente dos campos nazistas, afirmou que mesmo diante do horror ainda resta ao homem uma última liberdade: escolher, de algum modo, a atitude interior diante do sofrimento. Uma liberdade sem romantismo e sem enfeite. Não desfaz a prisão, não cura a doença, não ressuscita os mortos. Impede, no entanto, que o mundo exterior seja o único autor da alma. É o acúmulo no pequeno que transforma o grande, e este restringe o pequeno segundo as novas condições. Sempre atualizadas numa frequência infinitesimal.
Para muitos, a vida surge do caos e, por consequência, não teria significado ou propósito. Essa conclusão, apesar de estar em consonância com o absurdo que observamos, pode ser apressada. Mesmo que tudo tenha emergido de condições iniciais caóticas, é preciso considerar o papel da evolução na história do universo. Ao longo do tempo, surgem formas cada vez mais complexas de organização. Do mundo físico-químico emerge o biológico; da vida, a consciência; da consciência, a linguagem, as ideias, a ética, a arte, a pergunta pelo sentido.
Isso não exige que se prove uma finalidade externa escrita desde o início. Pode-se admitir, com prudência, que o universo produz ilhas de ordem, sistemas capazes de se conservar, organismos capazes de perceber, mentes capazes de sofrer e pensar e com base nisso criar. O sentido não parece dado antes da existência. Pode surgir dentro dela.
As ideias, que alguns poderiam imaginar eternas num mundo platônico, só ganham corpo quando atravessam uma experiência individual. Justiça, beleza, coragem, compaixão, amor, liberdade: nada disso existe para nós apenas como conceito. São ideias vividas sob pressão, no corpo, no erro, na perda, na escolha. O mundo das ideias precisa do mundo dos acontecimentos para deixar de ser abstração.
Certa vez, escrevi um texto sobre o sentido da vida, em cuja conclusão afirmo o que parece óbvio: o sentido da vida é viver. Experimentar e participar de uma rota única de acontecimentos, na qual nossa pequena contribuição ao todo permite nos sentirmos realizados, mesmo com a chance do absurdo, mesmo com a noção comparativa de nosso tamanho e importância diante do todo. É o prazer de ser especial por aquele caminho escolhido para nós e abraçado por nós para, com inventividade, transformá-lo naquilo que podemos dentro de nossas pretensões e condições.
Se considerarmos a possibilidade de que o universo seja, em algum sentido profundo, mental, nossa evolução pode ser vista como uma janela pela qual o cosmos observa a si mesmo. Mesmo quem rejeita essa hipótese pode reconhecer algo menos metafísico e ainda assim relevante: a matéria, ao longo de bilhões de anos, tornou-se capaz de perguntar por sua própria origem. O pó aprendeu a duvidar. Não é pouca coisa. Há filósofos, escritores e, com certeza, cineastas que fariam menos com mais verba.
Ainda que o caos esteja na origem da engrenagem — e possa continuar servindo de plataforma secreta para o novo —, em algum ponto a organização emerge. Para alguns, isso aponta para uma supraconsciência universal, normalmente chamada de Deus. Para os céticos, mas crentes nos encaixes, basta reconhecer que a evolução produz ordem local, adaptação, complexidade, memória e direção temporal. Em ambos os casos, chegamos ao mesmo ponto: por que nos angustiar tanto com a ideia de estarmos entre dois grandes nadas, se a existência, entre esses vazios, oferece a cada um a oportunidade de aparecer, agir e mandar um alô que reverbere.
O fato de parecer que somos livres não prova que sejamos. Pode ser apenas uma impressão necessária, uma ilusão útil, um modo de funcionamento da consciência. Essa leitura é compreensível. O problema é que, levada ao extremo, reduz a emergência a simples aparência: tudo já estaria descrito, apenas ainda desconhecido por nós. Não me parece ser essa a história contada por um universo que nasce e respira, que através de simples interações alcança combinações de tirar o fôlego. Não é prudente descartar nossa impressão e forte intuição como simples erro. Na maioria das vezes o primeiro rumo do coração aponta corretamente a direção. Em nossa experiência cotidiana, nós, dentro da vida, organizamos responsabilidade, arrependimento, promessa, educação, amor e justiça. Bem mais plausível apostar num universo vivo do que num bloco morto. Então que investiguemos com mais afinco, em vez de abraçar afoitamente a resposta mais lógica, carregando ainda um paradoxo, diante do mistério. Se vivemos como seres que respondem pelo que fazem, ainda que nunca respondamos sozinhos por tudo aquilo que nos formou, elenquemos as possibilidades que possam se encaixar.
O livre-arbítrio permanecerá uma questão indeterminada: física, biológica, psicológica e moral ao mesmo tempo. A pequena margem de intervenção que transpassa nossos condicionamentos desperta esperança e criatividade. Nascemos com inclinações, limites, impulsos e heranças de toda ordem; trabalhamos sobre cada aspecto com os atributos imperfeitos da consciência de um ser programado para sobreviver em um microambiente, com memória, presença e coragem. Seguindo a trilha do tempo, em nosso polimento íntimo, difícil e contínuo, começa a nossa liberdade.
Richard Feynman disse: “Eu escolhi uma vida de incerteza e de dúvida, em detrimento de uma vida de certeza e de segurança.” A frase serve bem ao tema. A postura mais honesta diante do livre-arbítrio aceita a dúvida sem tentar resolvê-la à força. O universo usa véu. A consciência também. Nós: olhos, neurônios e corações.
Sartre escreveu que a existência precede a essência. Queria dizer que o ser humano não nasce com um destino moral pronto, uma finalidade fixa, uma natureza fechada. Primeiro aparece no mundo; depois, por atos, escolhas e projetos, vai se fazendo.
A frase continua de pé, mas hoje em dia exige maior cuidado na interpretação. Não podemos lê-la como se nascêssemos em branco. Ninguém escolhe a própria largada. Há corpo, temperamento, genética, ambiente familiar, pobreza, trauma, cultura, nutrição, acaso. Quando alguém decide, já decide de dentro de todas as condições que o rodeiam. Em sua jornada, não pode desconsiderá-las nem usar a regra genérica, universal. Para cada um, existe a resposta adequada segundo o casamento entre o eu e o todo. “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim.” — Ortega y Gasset.
A existência precede a essência carregando desde o início um conjunto de inclinações e condicionantes. É justamente aí, no trabalho difícil sobre elas, que começa a nossa chance de realmente existir.
“Somos nós que fazemos a vida, como der, ou puder, ou quiser.” — Gonzaguinha.
Glauco Saraiva é Escritor.



