O diabo está solto (por Lindolfo Paoliello)

O diabo é às brutas, mas Deus é traiçoeiro” - Guimarães Rosa [...]

O homem tem seu arcabouço: é o esqueleto; os edifícios, se reduzidos à sua expressão básica, mostram a estrutura de concreto e aço; no arcabouço do carnaval está a liturgia católica.

Arranquem-se do carnaval as plumas e paetês, serpentinas e confetes, e cubra-se o mundo de roxo, com pitadas de cinzas e água benta, e teremos a Quaresma.

O carnaval dura três dias, oficialmente; quatro, na verdade. À vezes cinco, como na Bahia, por decreto de Antônio Carlos Magalhães, antes Toninho Malvadeza, agora Toninho Maravilha, por obra e graça da baianidade. A Quaresma são quarenta dias, da quarta-feira de cinzas ao Domingo de Páscoa. No carnaval o que acontece? O leitor sabe e eu não sou indiscreto: Cada um faz o seu carnaval, e o que importa é que o carnaval é feito às escâncaras: “O Diabo é às brutas, mas Deus é traiçoeiro”, escreveu Guimarães Rosa. Será? Então, na Quaresma o que acontece? O impensável: na travessia entre o profano e o sagrado predomina o Sujo, o cão, o coxo, o Arrenegado, o Azarape, Coisa-Ruim.

“Ubique demon”, benziam-se os antigos: “O Diabo está em toda parte.” E punham-se os cristãos a assoar-se e a escarrar, para cuspir fora os demônios, esconjuro, vade retro!

E o leitor a quem a crise, o desemprego e a insegurança fizeram esquecer a liturgia, já se põe em guarda: Deus do céu, o Demônio está solto! Pura verdade. Mas será verdade?

“É uma presença real, capaz de imensas atrocidades”, afirmou o Cardeal Ratzinger, então prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. “Sociedades inteiras têm caído nas mãos do Diabo”, já advertia o Papa Paulo VI. “Vigiai e combatei as ações maléficas do Anticristo”, ordenou João Paulo II. Mas o Demônio existe? Que diabo é isso?

Tome o leitor os conceitos de malícia e intriga. O primeiro contém tudo aquilo que é tendência para o mal; o outro é a destruição pela cilada, a traição. Junte esses conceitos e terá o Esperto, o cão. Para são Cipriano, que viveu no século II, havia 3,2 bilhões de demônios no mundo, o equivalente, à época, a 16,8 diabos por pessoa. Um famoso demonógrafo, o Dr. Wier, assegurava haver exatos 44.635.569 diabos. Já uma lenda antiga conta que o Rei Salomão prendeu, certo dia, em uma garrafa, 522.280 diabinhos. Mas um consagrado demonologista do século passado dizia que Belzebu, o número 1, dispunha de 6.666 legiões, cada qual formada de 6.666 demônios que perfaziam, segundo minha calculadora bancária, 44.435 demônios, o que, convenhamos, é muito pouco para, hoje, assombrar toda a terra.

Onipresente ou não, o Demônio está solto na Quaresma, vale dizer que vamos passar em má companhia os próximos dias e, com ele à solta, ingressamos num cinzento outono. Temos muito a temer, se aceitarmos a teoria segundo a qual a crença no Diabo nasceu, na Idade Média, do desespero de quem já nada esperava de Deus.

Filho do sofrimento e do medo, o Diabo perseguia os senhores e preservava os pobres. Verdade? Se é certo que o romancista retrata a alma do povo, parece que, por aqui, o Diabo não é a criatura transcendente dos cronicões da Idade Média. “O Diabo”, diz Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, “vive dentro do homem, os crespos do homem. Ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por aí, cidadão, é que não tem diabo nenhum.” Isso escreveu Guimarães Rosa, que Deus o tenha.

Lindolfo Paoliello é Cronista, Autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal Amadas.

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