
Educação é um tema que sempre me fascinou. Como aluno, depois de ter tido destaque no então curso primário tornei-me pouco mais do que medíocre até a formatura em engenharia, ainda que não tenha repetido um ano sequer. Nunca exerci regularmente o magistério. Minhas experiências como professor se resumiram a algumas aulas de matemática de reforço, que não chegaram a deixar saudades, nem aos poucos alunos, muito menos a mim mesmo. Anos depois de formado cheguei a ministrar aulas em um curso de extensão em Engenharia de Barragens na Escola de Engenharia da UFOP e a proferir palestras sobre o mesmo tema em cursos de graduação e pós-graduação da Escola de Engenharia da UFMG.
Não resta dúvida que a educação hoje é muito diferente do que foi no meu tempo. Naquela época se privilegiava o conhecimento enciclopédico. Ainda hoje guardo na memória informações de importância discutível como capitais de países distantes, afluentes das margens esquerda e direita dos rios Amazonas e São Francisco, datas de conquistas, batalhas, nascimento e morte de figuras notáveis, fórmulas químicas, famílias e espécies de flora e fauna etc., etc.
As reformas que vêm sendo feitas ao longo dos tempos, ainda que de forma lenta, têm procurado dar ao ensino uma visão mais objetiva em relação ao trabalho. Acontece que hoje o mercado de trabalho é muito menos previsível, o que justifica a dificuldade que os jovens têm para fazer as escolhas profissionais e a facilidade com que se começa e se desiste dos mais variados cursos. Acho que muita coisa nova ainda precisa ser pensada e colocada em prática.
Em sociedades primitivas, o processo de educação é permanente e ocorre de forma natural, com foco no conceito de sobrevivência. Os conhecimentos elementares são passados aos mais novos por seus pais, irmãos, demais parentes e pessoas próximas. Ao longo da vida, vão sendo incorporados novos conhecimentos, cuja busca incessante sempre diferenciou o homem das demais espécies.
A evolução da civilização conduziu a um refinamento do conceito de educação, que proporcionou o surgimento dos detentores dos saberes, os mestres, que tinham a missão de passar seus conhecimentos aos aprendizes. Surgiram as escolas, a princípio em espaços livres e, principalmente a partir da revolução industrial, em edificações específicas. A educação foi aos poucos se transformando em uma atividade essencial, mas só muito recentemente acessível à toda a sociedade.
Para que haja uma sintonia com a nova sociedade pós-industrial na qual vivemos será preciso fazer uma revisão profunda dos atuais conceitos deixando de considerar a educação como uma atividade à parte. Será preciso entender a educação como um processo permanente, integrado ao dia a dia de todos durante toda a vida, assim como ocorre nas comunidades primitivas.
Há pouco mais de três anos comecei a me envolver no assunto educação na Escola Estadual Governador Milton Campos, junto com um grupo de ex-alunos daquele estabelecimento, então denominado Colégio Estadual de Minas Gerais, ou Estadual Central. Exceto pela arquitetura de Oscar Niemeyer o colégio que estávamos vendo era uma sombra daquilo que tinha sido em nosso tempo. Depois do primeiro contato e da visita que fizemos a primeira vontade seria virar as costas e nunca mais voltar.
Mas, em conversas com a diretora, vice-diretores, alguns professores e alunos sentimos que nossa presença ali despertou uma ponta de esperança, e isso foi o suficiente para nos estimular a tentar descobrir de que forma poderíamos trabalhar para que a escola voltasse a ser, hoje, uma referência em educação não só em Minas, como em todo o Brasil. É o que, com a ajuda de outros ex-colegas, amigos e vizinhos estamos procurando fazer desde então.
Naquele momento a estrutura do colégio apresentava bom estado de conservação, embora requerendo importantes intervenções e melhorias. Poucas salas dispunham de equipamentos modernos de informática e climatização. Os gramados, jardins e pátios estavam malcuidados e sujos, assim como as instalações sanitárias. A praça de esportes também carecia de intervenções, e até hoje a piscina não foi reformada.
O quadro de professores era formado em sua maioria por professores concursados e a diretoria constituída dentro dos padrões usuais. O número de alunos matriculados era muito inferior à capacidade das salas de aula. Havia uma queixa da direção de que o quadro de funcionários regulares era insuficiente para atender, ainda que de forma precária, às inúmeras demandas. Porém, em conversas com a Superintendência Regional de Ensino Metropolitana constatamos que não faltavam recursos financeiros para atender a todas as demandas. Concluímos que talvez faltasse diálogo.
A questão que precisávamos responder era como deveríamos atuar, sem que isto pudesse ser entendido como qualquer tipo de interferência na competência do Estado. A nossa ideia era mobilizar um número representativo de pessoas, ex-alunos ou não, que tivessem interesse e tempo para se fazerem presentes no Colégio. Entendemos que essa presença constante, e o cuidado daí percebido, podem vir a ser de fundamental importância para garantir que nenhum dos alunos ali matriculados deixe de aproveitar os ensinamentos recebidos e que todos tenham plenas condições de aprimorar suas respectivas habilidades e competências.
Costumo brincar que os membros da Associação de ex-Alunos e Amigos do Estadual Central dispõem de todo o conhecimento do mundo. Somos pessoas ainda trabalhando ou aposentadas, que pertencem a uma vasta rede de conhecimento, disponível para atender às mais variadas demandas de alunos e professores, e na medida do possível, isso tem ocorrido. Além disso, temos recebido importantes e frequentes contribuições de vizinhos do bairro, do Minas Tenis Clube, e de diversas empresas. Essa percepção da força do nosso apoio tem servido para estimular o sentimento de pertencimento ao Colégio, o que pode ser comprovado por algumas ações por eles propostas e executadas, como, por exemplo, o controle de desperdício no almoço.
Penso que com maior presença da Associação poderíamos estar desenvolvendo um trabalho com resultados mais efetivos, entretanto, ainda não conseguimos encontrar uma forma de atrair a participação de novas pessoas, talvez porque a maioria nessa altura da vida não se sinta à vontade para assumir novos compromissos. Infelizmente, não valorizamos no Brasil a cultura do trabalho sem fins lucrativos. Em outros países esse conceito é utilizado há muitos anos e sua importância nas suas respectivas sociedades é muito valorizada. E é curioso ressaltar que até meados do século passado o trabalho voluntário era uma atividade exercida de forma regular, notadamente por ilustres figuras de nossa sociedade.
É preciso resgatar a ideia do voluntariado, insisto em dizer, não para substituir as ações do Estado, mas como forma de apoio para garantir o melhor aproveitamento dos recursos públicos. Só muito recentemente temos visto essa atividade sendo considerada e mensurada em balanços contábeis, um reconhecimento de sua real importância.
Pelo que já pude observar em conversas e nas minhas idas ao Colégio, o interesse e a participação constante dos membros da Associação no dia a dia e em eventos regulares e festivos ali ocorridos têm servido de estímulo aos professores e alunos em suas ações de protagonismo e cidadania, não só dentro, como fora do Colégio. Continuo achando que estamos trilhando um caminho cheio de desafios, que se tornarão cada vez mais fáceis de enfrentar, quanto maior for a participação de todos aqueles que se dispuserem.
Otávio Werneck é Engenheiro Civil, ex-Aluno do Colégio Estadual e Diretor da Associação dos ex-Alunos e Amigos da EE Gov. Milton Campos



