
Era um alto executivo de uma empresa canadense, cujo destino pródigo quis que viesse um dia dar com os costados na progressista cidade de Vitória da Conquista.
Com ele veio todo um séquito: seu assistente, o diretor para o Brasil, o representante na Bahia, “and so on”. Passaram dois dias em intermináveis reuniões, tomaram litros de cafezinhos, o jovem assistente teve uma bruta dor de estômago, assinaram contratos, demitiram, admitiram e, negócios à parte, ficou acertado que o representante na Bahia iria levá-los para jantar no restaurante da Lena.
O restaurante da Lena, posto que muito bem instalado e com um serviço razoável, fica naquela região da cidade que, no tempo em que havia transporte ferroviário no Brasil, se chamava “do outro lado da linha”, quer dizer, na assim chamada “parte alegre” da cidade.
Ali foram parar nossos ilustres executivos, já bastante animados por umas tantas doses tomadas no hotel. A chegada deles foi um acontecimento: o representante na Bahia havia tomado suas providências e a casa estava um brinco, com toalhas de linho, talheres novos e, principalmente, graciosas moçoilas que a Lena tomou o cuidado de mandar vir de Feira de Santana.
Eles chegaram com a algazarra que caracteriza esses acontecimentos, gargalhadas espalhafatosas misturando-se com os gritinhos das mulheres, e os convidados de honra acharam de distribuir cartões de visita para as senhoritas: só a Marlene, que disse que colecionava cartões, saiu de lá com uns três de cada.
E a noite seguiu o rumo normal das farras, talvez com um ligeiro excesso por parte do alto executivo canadense que, lá pelas tantas, foi visto entrando no hotel usando uma das vistosas saias da Lena, brandindo uma garrafa de uísque em cada mão.
Mas, o leitor sabe, nem tudo são flores na vida de um alto executivo, e, no dia seguinte, depois de uma viagem de jatinho, ele levantava vôo de volta para os negócios no Canadá.
Passaram-se duas ou três semanas e, numa bela manhã, ao abrir a correspondência, sua esposa deu com uma carta, dirigida a ele, que qualquer criança saberia ter sido escrita por uma mulher.
Pois a madame, que já andava meio às turras com o marido, não teve dúvidas em abrir a carta que, minutos depois, era traduzida para ela por uma amiga que havia morado em São Paulo.
A carta começava assim: “Fofinho: não sabe como é grande a dor de viver longe de você. Vitória da Conquista já não tem mais nenhum atrativo para mim…” E ia por aí afora a carinhosa carta romântica brasileirinha, que terminava em tom de tragédia: “Ò bem: se você não voltar, escreverei com sangue seu nominho lindo”.
Com tanto cartão no bolso, Marlene havia feito uma imperdoável confusão: sua sentida carta de amor, era, na verdade, dirigida ao jovem assistente do alto executivo, que amargou um divórcio e, até onde se sabe, nunca mais voltou a Vitória da Conquista.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.



