Meu tempo, nosso tempo (por Luís Giffoni)

No meu tempo, os verbos amar, gostar e querer estavam encobertos por uma camada tão espessa de [...]

No meu tempo, os verbos amar, gostar e querer estavam encobertos por uma camada tão espessa de urgência, de competição, de consumismo e de luta por dinheiro, que ficavam relegados a segundo plano. Provocavam mesmo certa vergonha quando abordados nas rodas de pouca intimidade. Receava-se revelar uma paixão e passar por brega. No entanto, quando refletiam, as pessoas admitiam que desejavam amar, gostar, querer e apaixonar. Sim, quase todas buscavam companhia. A solidão assustava. O que, confesso, não era prerrogativa de meu tempo.

No meu tempo, os casais se encontravam e se desencontravam dentro das limitações do convívio. Havia problemas, é claro, mas cinderelas e príncipes encantados se esforçavam para transformar seus sonhos em realidade.

Aliás, no meu tempo, todos buscavam sonhos. Sem eles, a vida perdia o sentido. Os mais radicais sonhavam com a vida eterna. Nunca se soube se chegaram lá.

Elas adoravam ser cortejadas. Algumas, da boca para fora, negavam. Gostavam de ganhar flores, presente que, em geral, tachavam de démodé e sem imaginação, porém seus egos subiam à estratosfera quando recebiam rosas. Corriam para abrir o envelope e ler o cartãozinho do remetente. Se este se identificava apenas como um admirador secreto e escrevia idiotices do tipo “você é a nora que minha mãe sempre pediu” ou “você é a luz redentora da minha existência”, elas quase jogavam o buquê no lixo, contudo a curiosidade as impedia de concretizar o gesto. Quem lhe tinha mandado as rosas, quem? Pronto. Estava aberto o caminho para o relacionamento.

No meu tempo, as mulheres temiam envelhecer. Cultuavam a juventude, como se o tempo não passasse para todos. Louvavam a pele sem rugas e as curvas para sempre perfeitas. Perseguiam um ideal que a natureza nega aos seres humanos. Inseguras, elas se esqueciam de que, no íntimo, todas queriam amar, a feia, a bela, a magra, a gorda. Terrível palavra esta: gorda. Se a ouviam, o mundo despencava. Até as magras se julgavam obesas, e as mais extremadas comiam tão pouco que quase morriam de inanição. Tudo em nome de um padrão de corpo imposto pela moda. Daí o elogio então usado, meio estranho, reconheço: “Como você emagreceu, querida!”. Todas – os homens também – apreciavam escutar isso. Mesmo que fosse à custa de Ozempic.

Aliás, no meu tempo, em toda a Terra, elas e eles gostavam de ser escutados. O atalho para a amizade ou para o amor passava pelo interesse genuíno em ouvir o outro contar suas vivências, alegrias, tristezas, conclusões. Alguns minutos de atenção costumavam ser o ponto de partida para a intimidade que, às vezes, durava décadas. A surdez, com audição perfeita, em geral indicava o fim do relacionamento.

No meu tempo, os jovens tinham muitas certezas; os mais experientes, nem tantas. Os primeiros queriam mudar o mundo; estes, mudar a si mesmos. Uns e outros raramente alcançavam o intento. Tentavam, contudo. Isso era o mais importante.

No meu tempo, a vida possuía uma simplicidade tão avassaladora que se gastavam vidas para explicá-la, complicá-la, teorizá-la, puni-la. Era igualzinha para todos, não importa se em Belo Horizonte, Roma, Paris, Nova York ou em qualquer outra metrópole.  

O meu tempo, desprovido de detalhes, ufanismos e penduricalhos, era também igualzinho a todos os outros.

O meu tempo é hoje.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.sineteeditora.com.br/linha-de-neve

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