
O futebol é rico em histórias grandiosas, construídas por seus grandes craques, por times fabulosos, jogos memoráveis, conquistas inesquecíveis.
Mas, há um outro lado.
Ele também produz histórias hilárias, inusitadas, bizarras, inacreditáveis. E um personagem desse tipo de relato – difícil de se acreditar – é a de Carlos Kaiser (Carlos Henrique Raposo), “o maior jogador de futebol que nunca jogou futebol”, como diz Renato Gaúcho, grande amigo de Carlos.
Kaiser terminou a carreira da mesma forma como começou: detestando futebol e utilizando-se das mais incríveis artimanhas para sequer treinar e nunca disputar uma partida oficial.
Depois de passar pelas categorias de base do Botafogo/RJ, fez uma carreira profissional (a partir de 1977) de mais de 20 anos, com passagens, entre outros, por Flamengo, Fluminense, Vasco, Bangu, América/RJ, Puebla (Mexico), Louletano (Portugal). Conquistou vários títulos sem nunca participar deles em campo.
Em todos os clubes, conforme fartura de relatos, deixou junto a colegas jogadores e dirigentes, um carisma incrível; um exemplo de simpatia e um jeito notável de fazer amizades, incluindo astros como Bebeto, Romário, Carlos Alberto Torres (já falecido), Júnior e o seu grande amigo Renato Gaúcho.
Adorava baladas, muitas boates e mulheres. E elaborava cuidadosamente as artimanhas para nunca entrar em campo. Usava de todo tipo de simulações: “Às vezes eu combinava com um zagueiro, em treinos, para dar uma entrada forte e aí eu reclamava contusão. Como não tinha exames de ressonância na época, eu simulava dores musculares, estiramentos. Pedia alguém para levantar a bola para mim, errava de propósito e simulava que sentia o músculo posterior da coxa e era um tempão em tratamento”, diz Kaiser em inúmeras entrevistas. Afirma, inclusive, que ele tinha um amigo dentista que sempre lhe dava atestados relatando sobre problemas em dentes para fugir de treinos. “E assim ia levando”, confessa.
A fama de “maior malandro do futebol mundial” rendeu a Carlos até um livro escrito por Rob Smyth, jornalista, escritor e colaborador do londrino The Guardian, em 2012, sob o títiulo “Kaiser – O maior jogador de futebol que nunca jogou futebol” (Kaiser – The greatest footballer never to have played football”), encontrado em versão digital, em inglês, na Amazon. O Guardian publicou ainda longa matéria sobre Carlos Kaiser, também escrita por Rob Smyth, a propósito de um documentário sobre o “ex-jogador”, ainda não disponível no Brasil.
Um dos episódios mais hilários da carreira de Carlos Kaiser, revelador da lábia que possuía, ocorreu quando ele “enganava” como jogador de futebol no Bangu, presidido na época pelo famoso bicheiro Castor de Andrade, que o adorava. Na madrugada de um domingo, Kaiser foi chamado ao telefone na boate Calígula. Era o técnico Moisés, avisando que Castor queria vê-lo na partida contra o Coritiba. O “jogador” ponderou que não estava bem (como sempre), mas teve que ir. Ordens de Castor não se discutiam.
O Bangu estava perdendo de 2 a 0, quando veio a ordem de Castor de Andrade, via radio-comunicador portátil, para o técnico colocar Carlos Kaiser em campo. No aquecimento à beira do gramado, ele viu a solução e sua salvação para não jogar, não entrar em campo. Ao notar um grupo de torcedores gritando para ele “cabeludooooo, biiiicha… viaaado”, Kaiser partiu irado para enfrentar os torcedores e provocou um tremendo tumulto. Foi expulso imediatamente pelo árbitro e seguiu para o vestiário.
Encerrado o jogo, o poderoso bicheiro Castor de Andrade, que todo o Rio de Janeiro temia, foi para o vestiário e logo dirigiu-se a Carlos Kaiser exigindo dele explicações para sua atitude. Muito esperto (como sempre), Kaiser disse que “Deus levou meus pais, mas me deu outro, o senhor Dr. Castor”, e afirmou que perdeu mesmo a calma e “fui pra cima deles porque chamavam o senhor de bicheiro ladrão, o que não admito”.
Com semblante sério, disse ainda que seu contrato terminaria em 10 dias, mas que o presidente podia mandá-lo embora naquele momento. Castor sorriu, abraçou carinhosamente Kaiser, chamou seu assessor e lhe disse para renovar o contrato do “Carlinhos” com o Bangu por mais três meses e dobrar seu salário. Hoje, Carlos é professor em academia de trabalhos físicos e de fisioculturismo, no Rio.
Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor




