
Qual a possibilidade de, numa noite qualquer, um belo-horizontino encontrar quatro conterrâneos tagarelas no Temple Bar, o botequim mais conhecido de Dublin, na Irlanda? Mínima, diria o bom senso. Aconteceu comigo, porém. Eu tomava uma cerveja no balcão, quando escutei, às minhas costas, comentários maledicentes sobre pessoas de BH. E como falavam mal dos ausentes! Ninguém gosta de fofoca, todos sabemos, mas nossa atenção não resiste a um relato saboroso. A atenção dos escritores, então, nem se diga. Por mais que nos esforcemos para ficar surdos, nossos ouvidos não nos obedecem. O motivo é simples: casos e causos trazidos pelo acaso geram as melhores histórias.
Nada me foi revelado de anormal no Temple Bar, apenas hipotéticas traições conjugais em curso na Zona Sul de BH, negociatas de políticos ilibados, intrigas sobre a personalidade mesquinha de um milionário e sobre a sexualidade de outro. Pura conversa de boteco, contudo os detalhes me deliciaram pelo inusitado da hora e do local. Não sei quem eram os quatro tagarelas, só os vi de relance, meio atento ao show de sapateado dos irlandeses. No entanto, as notícias de BH, tão longe, tão perto, me proporcionaram uma distração adicional.
Há alguns anos, num restaurante na Argentina, descobri na mesa dos fundos um corrupto brasileiro, na época recém-cassado. Apontei-o para meus filhos: “Olhem ali um corrupto!”. Pois não é que, enquanto eu pronunciava a frase, um completo silêncio baixou no ambiente, e minha voz chegou até o dito cujo, que voltou a cabeça em nossa direção, pediu a conta e se mandou? O ar ficou mais puro, mas isso com certeza foi coisa de minha imaginação.
Soube, também, de outra coincidência, trágica por sinal. Um mineiro casado levou a namoradinha trinta anos mais nova para umas férias conjugais na China. No alto da famosa Torre de Xangai, enquanto os amantes trocavam juras e beijos, quem por acaso aparece ao lado deles? Um casal amigo de muitos anos, ela velha companheira de voluntariado da traída. As reações dos quatro envolvidos dariam, cada uma, assunto para uma crônica. Já tentei passá-las para o papel, porém até agora não ficou bom: a realidade é muito mais criativa que a minha arte.
Outro caso curioso aconteceu comigo na Bolívia, a 5 300 metros de altitude, no Rock Camp, a caminho do pico Huayna Potosí, um fim de mundo gelado a mais de 6 000 metros acima do mar, no meio dos Andes. Quando entrei no alojamento, o que vejo à direita, pregada na parede, junto à escada para o dormitório? Uma bandeira de Minas Gerais, com assinaturas de escaladores de Belo Horizonte, Contagem, Varginha e Três Pontas.
Dizem que mineiro não viaja. Se isso já foi verdade, no que não acredito, agora não é mais. Em primeiro lugar, trata-se de uma questão econômica: é muito mais barato ir a Paris que trazer Paris para cá. Em seguida, descobrimos, há muito, que o mundo é maior que o nosso estado, daí nossa curiosidade para buscar o mundo. Parafraseando o Fernando Brant: “Estou no mundo, sou Minas Gerais”. Quem for a Los Angeles, Roma ou Pequim, aposto que encontrará um mineiro.
Nossa internacionalização exige, mais que nunca, pôr em prática uma virtude da qual nos orgulhamos: a prudência. Cuidado, portanto. No exterior, quando quiser fofocar, criticar, namorar escondido, crente que a lonjura o protege, sonde antes os roteiros mais visitados, dê uma olhadinha nos arredores, não se exalte, fale baixo. A Terra virou um ovo de codorna. Cabe na boca de qualquer mineiro.
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.sineteeditora.com.br/linha-de-neve



