
Algumas experiências humanas não se revelam quando são apressadas, expostas e exigidas cedo demais. Não florescem sob cobrança ou antecipação. Precisam de um tempo próprio de formação, silencioso, sem pressão por respostas imediatas e ações rápidas. Quando submetidas à luz intensa, perdem densidade e sustentação. Mas quando recebem o ritmo certo, organizam-se, ganham forma e sustentação.
Há coisas que não suportam o excesso de claridade. Não porque sejam frágeis, mas porque são preciosas e precisas.
No Vale das Rosas, na Bulgária, existe um saber antigo: as flores destinadas ao perfume mais raro são colhidas de madrugada, quando ainda há orvalho, o sol ainda não despontou no horizonte e o mundo repousa em silêncio. Nesse momento guardam o máximo de sua essência. Horas depois, o perfume já não possui o mesmo frescor.
Assim também acontece com a vida. A pressa, o barulho e a ansiedade embrutecem a sensibilidade. O essencial e a sutileza não respondem à urgência. Precisam do momento certo para se formar.
Decisões, percepções e sentimentos não emergem no auge do dia, quando tudo exige movimento, desempenho, posicionamento e respostas imediatas. Revelam-se quando a vida desacelera, quando o olhar se liberta da obrigação de justificar ou produzir.
Vivemos em uma cultura que valoriza o rápido e o visível. Mas o que é verdadeiramente sustentável cresce em silêncio. Algumas compreensões só chegam quando o tempo está maduro. Antes disso, são como flores colhidas cedo demais.
Colher rosas à noite não é romantismo. É método. É respeito ao ritmo da natureza das coisas.
Aprender a esperar, com leveza e confiança, talvez seja uma das maiores sabedorias do nosso tempo. E quem sabe, parte do nosso cansaço silencioso venha justamente da tentativa de colher, sob sol alto, aquilo que só revela sua essência no escuro e no silêncio.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



