
.O silêncio de que precisamos
Há viagens que nos levam a conhecer lugares. Outras nos levam a conhecer novas dimensões da vida.
Minha viagem ao Butão foi uma dessas experiências.
Diante do Tiger’s Nest, o Ninho do Tigre, suspenso nas montanhas do Himalaia, a grandiosidade não estava apenas na paisagem.
Estava na cultura milenar, na espiritualidade, nos valores preservados através dos séculos e em uma maneira singular de compreender a existência humana.
Hoje, quando me recordo daquele lugar, penso no silêncio que ele representa.
Vivemos em um mundo cada vez mais acelerado e barulhento. As palavras se atropelam, as opiniões se transformam em julgamentos e as diferenças, tantas vezes, em hostilidade.
Falamos muito. Escutamos pouco. Reagimos antes de compreender.
Sinto falta de silêncio. De distanciamento.
Não da distância que nos separa das pessoas, mas daquela que nos permite interromper o movimento, observar, reconsiderar e pensar sobre o que estamos fazendo de nós mesmos.
O Tiger’s Nest permanece em minha memória como símbolo dessa possibilidade.
Ali, o silêncio não representa ausência. É espaço de contemplação, de conhecimento, de presença.
Não precisamos viver isolados nas montanhas para experimentar essa condição. Mas talvez precisemos reaprender seu valor em nossa vida cotidiana.
Uma cultura que atravessa mais de mil anos não tem necessariamente todas as respostas para os desafios contemporâneos. Mas pode nos lembrar de algo essencial: nem tudo o que nos faz avançar nos ajuda a evoluir.
Talvez o silêncio de que a humanidade mais precise não seja a ausência de palavras, mas o espaço necessário para que a consciência se manifeste.
Viajar também é isso. Encontrar outras maneiras de compreender o mundo e, nesse encontro, ampliar a compreensão de nós mesmos.
Há lugares que visitamos. E há experiências que passam a fazer parte de quem somos.
Butão. Uma delas.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



