
As eleições de 1978 fazem parte de minhas memórias do futuro. E eu nem desconfiava.
Em 15 de novembro daquele ano, dois candidatos disputaram o voto de Araxá. Concorriam a uma vaga para deputado federal.
Pela Arena, o ex-presidente da Caixa Econômica Estadual e plantador de café, Hélio Garcia. Pelo MDB, Ronan Tito, que foi caminhoneiro e valete no Grande Hotel do Barreiro.
Era o segundo turno das eleições estabelecidas pelo famigerado Pacote de Abril no estertor do sistema bipartidário brasileiro.
No primeiro turno, realizado em 1º de setembro, o colégio eleitoral de Minas Gerais, composto por 1.512 membros, referendou o novo governador do estado, na sucessão de Aureliano Chaves.
Os delegados da Arena acataram a ordem do presidente Ernesto Geisel, o coronel da política nacional, apesar da patente de general.
Sancionaram a chapa encabeçada pelo deputado federal e presidente nacional da Arena, Francelino Pereira, nascido em Angical do Piauí, mas com toda sua trajetória política em solo mineiro, sacudindo o lenço branco da UDN.
O vice era o deputado estadual João Marques de Vasconcelos, ex-seminarista de Muzambinho, no Sul de Minas. O ex-noviço trocou o capuz de franciscano e o Convento de São Boaventura, localizado em Bento Gonçalves –RS, pela política. Sargenteou nas fileiras do PSD.
Os 1.354 eleitores que compareceram à Assembleia Legislativa deram 97,34 por cento (1.318 votos) de sua preferência a Francelino. Saiu derrotado o político Murilo Badaró, do PSD, que ousou desafiar o cabresto presidencial em candidatura solo. E rebelde.
O segundo turno comporia as bancadas do Congresso Nacional, em Brasília. Hélio Garcia se viu acuado pelo sentimento oposicionista ressurgente no país. Em maio de 1978, um certo dirigente operário chamado Luiz Inácio da Silva, o Lula, acordou o sonolento sindicalismo brasileiro. O barbudo, desconhecido em Minas, liderou uma série de greves nas fábricas do ABC Paulista.
O protegido do ex-governador Magalhães Pinto, chefe civil do golpe militar de 1964, estava sem mandato desde 1971. Não admitia perder mais uma eleição. Fora preterido, como seu amigo Murilo Badaró, pelo capricho imperial de Geisel.
Na época, a TV registrou seu desconforto com a derrota para um piauiense, de origem modesta. Francelino Pereira migrara para Belo Horizonte nas trilhas de seu conterrâneo Carlos Castelo Branco, o maior repórter político da história do Brasil e mais tarde membro da Academia Brasileira de Letras.
Quando perguntado pela TV Globo como viu a escolha de Francelino para a chefia do Palácio da Liberdade, Hélio foi seco, no seu estilo malcriado:
“Pela televisã”.
Então, Hélio Garcia procedeu como ainda se faz em Minas. Fechou acordo com os coronéis da política, donos dos votos populares com o mesmo poder do general sobre os delegados do colégio eleitoral.
Acertou com os coronéis de Araxá. Tinha parentes lá. Ele temia a onda oposicionista, protagonizada por Tancredo Neves, candidato ao Senado, e por Ronan Tito, então empresário na região do Triângulo, com destaque para Uberlândia.
Hélio manifestou o desejo de ir a Araxá. Conhecer as lideranças partidárias. Provar do “scotch” do bar e do banho de lama na sauna do Grande Hotel do Barreiro, projetado pelo arquiteto Luiz Signorelli a mando governador Benedito Valadares no início da década de 1940.
Foi desaconselhado a viajar à terra de Dona Beja. O cacique local Carlos Lemos, candidato arenista a deputado estadual, disse-lhe que sua presença podia prejudicar, em vez de ajudar. Garcia seguiu, ainda que ressabiado, o conselho. Permaneceu na fazenda de café de Santo Antônio do Amparo.
No Instagram, o jornalista Armindo Maia Neto publica o resultado daquela eleição, com os candidatos mais votados estampados na primeira página do jornal Correio de Araxá, do saudoso Atanagildo Cortes:
Carlos Lemos: 10.910 votos
Hélio Garcia: 6.508 votos
Ronan Tito: 5.214 votos
Para o Senado, Tancredo Neves, do MDB, obteve 6.787 votos seguido por Israel Pinheiro Filho (5.034) e Fagundes Neto (3.236), ambos da Arena.
Sem pisar o tapete vermelho do Barreiro, Hélio Garcia consagrou-se fenômeno eleitoral entre os 20.800 eleitores aptos a depositar as cédulas de papel nas urnas do Tribunal Superior Eleitoral. Venceu, de forma espantosa, outros concorrentes de seu partido como Magalhães Pinto (1.334), Homero Santos (435) e Eunice Lamartine Mendes (324).
Passados 48 anos, o pleito de 5 de outubro anota como o colégio de 81.839 eleitores comportou-se agora em Araxá. Carregaram a mão nos seguintes deputados federais: Nikolas Ferreira, PL, (20.998); Mário Heringer, PDT, (9.717) e Ana Elisa, PT, (2.793). Os forasteiros tratoraram os candidatos locais Inspetor Mauro Chaves (Podemos); Chicão Jesus Te Ama (PSD); Fanny Melo (Podemos); Maristela Dutra (Republicanos); e Pedrinho da Mata (PSDB).
Entre os estaduais, a taça de campeão foi entregue ao veterano Bosco, (PSD), nativo da cidade e que não se reelegeu, mesmo com a ovação gloriosa de 24.526 votos. Omara Paolinelli (PL) e Professor Jales (PT), também naturais de Araxá, caíram na suplência.
As eleições parlamentares de 2026 decretaram a morte dos coronéis. Os sinos barrocos de Minas dobraram por quem ainda confiava neles.
Mas, o toque de clarins anuncia novo comandante no quartel político de Minas Gerais. Seu jugo está nas redes sociais. Capazes de abarrotar o embornal de Nikolas Ferreira, com 3.119.318 votos e transformar em estrela de primeira grandeza a doce e aguerrida Ana Elisa, do PT, com 524.219 votos.
JD Vital é escritor e membro da Academia Mineira de Letras



