Prêmio para a tumba (por Luís Giffoni)

Aos ufanistas do Homo sapiens, a paleontologia lembra que há hoje menos de um por cento do total de espécies surgidas em todas as eras [...]

Aos ufanistas do Homo sapiens, a paleontologia lembra que há hoje menos de um por cento do total de espécies surgidas em todas as eras. Dinossauros, wywaxias, hallucigenias, dodos, todos foram para a vala comum da extinção. A natureza experimenta e rejeita as espécies sem se preocupar com o tamanho, o número, a beleza ou o ufanismo. Bobeou, dançou. A lei da seleção natural não perdoa. A vida é perigosa, como disse Virgínia Woolf em 1925, quando Guimarães Rosa tinha 17 anos.

Mesmo alertada, muita gente corteja essa lei implacável. Querem morrer antes da hora. Para esses temerários, foi criado o Prêmio Darwin, atribuído uma vez ao ano, em geral postumamente. Todos estamos sujeitos, numa vacilada, a merecer o troféu, por exemplo quando caminhamos falando ao celular. Era o que fazia um dos antigos concorrentes, um coreano. Tão compenetrado estava na conversa, que bateu a cabeça numa árvore e caiu duro. Quem gosta de dirigir conversando ao telefone tem tudo para se candidatar no ano que vem. O prêmio não discrimina tecnófilos.

Entre as dezenas de postulantes à honraria, existe um que desafiou Deus e foi punido no ato. Explico melhor. Um advogado e dois colegas estavam pescando no meio de um lago no Texas, quando uma tempestade de raios desabou. Os demais barcos se recolheram, mas o advogado achou a prudência desnecessária e convenceu os companheiros a continuar a pescaria. Para incentivá-los, levantou-se na proa de alumínio, abriu os braços ao estilo de um crucificado e berrou: “Deus, aqui estou e desafio a vossa fúria!”. Cabrum!!! O nobre causídico morreu eletrocutado. Os amigos, graças a Deus, ficaram apenas chamuscados.

Outro merecedor da glória darwiniana foi o rapaz que reuniu várias cordas elásticas, amarrou-as aos pés e à mureta de uma ponte e se lançou ao espaço, curtindo o voo livre de bungee jump. Cometeu um pequeno erro o nosso aventureiro. Escolheu cordas por demais elásticas e amparou a queda com o pescoço. Hoje come grama pela raiz. 

Por ter sobrevivido, o que o habilitou a receber pessoalmente o troféu, um grande vencedor foi o norte-americano que untou bem as mãos com uma supercola e, para comprovar a superaderência, bateu-as sobre as ancas de um rinoceronte. A substância era, de fato, poderosa. O bicho, mansinho, criado no zoológico, a princípio não se incomodou com o sujeito em sua cola, mas ao perceber que, por mais que corresse, a figura não se desgrudava, entrou em pânico e sofreu uma fantástica diarreia. O penico humano colheu as descargas no peito. Após um dardo tranquilizante, já no chão, o quadrúpede, relaxado, liberou sobre a cabeça do bípede mais uma tonelada de comida em processamento nos intestinos e, por pouco, não provocou um letal sufocamento. Fico a imaginar se a fragrância já desapareceu.

Pois é. Parafraseando lorde Keynes, a longo prazo todos estaremos extintos. No entanto, se dermos uma mãozinha – ou ambas, como acima –, entraremos para a história antes da hora. Como consolo, correremos o risco de levar um Prêmio Darwin para a tumba. Alguém se habilita?

Luis Giffoni é Escritor e Membro da Academia Mineira de Letras

Compartilhe esse artigo: