
Da Modernidade Líquida à hipótese da Modernidade Gasosa: o que acontece com a mente humana quando as referências deixam de se sustentar?
Domingo, 25 de outubro de 2026.
Escrevo neste domingo, quando o Brasil se aproxima de uma decisão importante nas urnas. Nesse contexto, me ocorreu uma questão que ultrapassa a escolha de quem governará o país.
Trata-se da capacidade de reconstruir perspectivas em uma sociedade que parece perder progressivamente suas referências, a confiança nas instituições e, sobretudo, a possibilidade de imaginar um futuro no qual ainda seja possível acreditar.
Na semana passada, tive o privilégio de acompanhar a live “A Política e os Negócios, os Negócios e a Política”, promovida pelo economista Fernando Blanco, profissional dinâmico e atuante, com longa experiência e profundo conhecimento do mercado financeiro, que recebeu Ricardo Guedes, CEO da SENSUS e Ph.D. em Ciência Política pela Universidade de Chicago.
Entre as análises políticas, sociais, econômicas e financeiras e as ideias compartilhadas, algumas despertaram em mim associações com a mente humana e a maneira como experimentamos e procuramos compreender o tempo em que vivemos.
Em sua reflexão sobre a Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman descreveu uma sociedade na qual estruturas antes consideradas sólidas perderam estabilidade. Vínculos, instituições, identidades e projetos de vida tornaram-se mais flexíveis, provisórios e sujeitos a constantes reorganizações.
Uma das provocações de Fernando Blanco me chamou a atenção: estaríamos ultrapassando a Modernidade Líquida e ingressando em uma espécie de Modernidade Gasosa?
A metáfora, na minha percepção, explodiu em novos sentidos. Merece atenção.
Se o líquido apresenta alguma coesão, o gás se expande, dispersa-se e ocupa espaços sem preservar contornos definidos.
Talvez estejamos experimentando algo semelhante em nossa relação com a realidade.
Vivemos em um mundo em que as informações se multiplicam, as referências se contradizem e as convicções se reorganizam rapidamente. Opiniões se formam e desaparecem antes mesmo de serem suficientemente examinadas e compreendidas. Julga-se pelo que se pensou ouvir, conclui-se antes de terminar de escutar. Disputas e sentimentos confusos e atropelados permeiam diálogos em família, separam amigos de longa data e atrapalham boas negociações.
E aqui me vem à mente uma questão particularmente inquietante: a percepção de que estamos convivendo com uma crescente indigência intelectual, expressão mencionada por Fernando Blanco. Penso nela não como ausência de informações, mas como dificuldade de transformá-las em conhecimento, discernimento e consciência crítica. Uma dificuldade que também compromete nossa capacidade de escutar, de estar presente e de nos relacionar com respeito e afeto.
Informação não é elaboração. Reação não é reflexão. Adaptação não é amadurecimento.
A mente humana precisa de tempo para interpretar experiências, compreender a realidade e suas contradições, sustentar dúvidas e dores internas, reconhecer negações e preconceitos e construir significados.
A contemporaneidade, porém, tem exigido respostas rápidas, espertas, ágeis.
Desenvolvemos grande habilidade para acompanhar os muitos acontecimentos e as inúmeras informações que nos chegam, sem que isso necessariamente amplie nossa compreensão. O cotidiano segue como se a grande capacidade humana no século XXI fosse acompanhar tudo o que acontece, mesmo sem tempo para compreender o que se vive.
Diante da insegurança que atravessa a vida social, buscamos certezas imediatas, identificações coletivas e explicações simplificadas para problemas profundamente complexos.
A divergência passa a representar ameaça. A dúvida, fragilidade. O pensamento crítico cede espaço à necessidade de confirmação.
Na vida coletiva, as consequências são profundas. Grupos sociais se relacionam com agressividade e ironia. O direito de pensar diferente perde espaço: rotula-se o outro e dele se distancia. O convívio social torna-se cada vez mais hostil e fragmentado.
Quando o cidadão deixa de reconhecer perspectivas consistentes, a participação democrática corre o risco de se transformar em uma política de sobrevivência: escolher não aquilo em que se acredita, mas aquilo que parece oferecer menor ameaça.
A volatilidade do emprego, a insegurança econômica, a dificuldade de atender às necessidades básicas e o enfraquecimento da confiança nas instituições tornam ainda mais difícil imaginar projetos de longo prazo.
Mas há algo que não podemos perder de vista.
O Brasil não é um país sem história, conhecimento ou recursos. O desafio está em transformar esse patrimônio em aprendizado, discernimento e perspectivas concretas de futuro.
Em uma de suas reflexões, Fernando Blanco fez uma observação que me soou especialmente significativa: a experiência e a história de um país, com seus erros e acertos, constituem um ativo valioso. Mas é preciso reconhecer, interpretar e elaborar essa experiência para que ela possa orientar a construção do futuro.
Lembrou-nos que o Brasil conta com instituições de ensino e pesquisa como a USP, a Unicamp, o ITA e tantas outras, com competências tecnológicas e industriais representadas pela Embraer, com recursos estratégicos, como as terras raras, e, sobretudo, com uma extraordinária capacidade humana de aprender, criar e realizar.
A live foi também enriquecida pelos conhecimentos de Ciência Política e pelas referências históricas trazidos por Ricardo Guedes, que nos permitiram ampliar o contexto para compreender o Brasil de hoje.
A grandeza de um país não se recupera apenas pela preservação de sua história, mas pela capacidade de transformar essa experiência em inteligência e valores para o futuro.
E essa reconstrução exige mais do que programas econômicos, disputas partidárias ou alternâncias de poder.
Exige maturidade humana, valorização da cultura e da educação, responsabilidade institucional, respeito à democracia e compromisso com a dignidade humana.
Nesse momento, Ricardo Guedes citou Antonio Gramsci sobre a crise “entre o antigo que morreu e o novo que ainda não conseguiu nascer.”
Essa passagem me leva, por fim, à perspectiva psicanalítica: a maturidade envolve reconhecer os próprios desejos, sentimentos e limites, lidar com frustrações e assumir responsabilidade pelas próprias escolhas. Inclui aceitar que o outro tem desejos e limites próprios e que nem tudo pode ser controlado ou satisfeito.
Amadurecer, mudar, transformar não significa deixar de ter conflitos, mas desenvolver condições para lidar com eles com maior consciência, flexibilidade e responsabilidade.
Acreditemos no futuro que podemos construir.
Avante Brasil!
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



