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Tanto lá quanto cá (por Ariosto da Silveira)

Olho as Montanhas Rochosas como se fossem a Serra do Curral. Têm semelhanças [...]

Olho as Montanhas Rochosas como se fossem a Serra do Curral. Têm semelhanças e a maior diferença é que a visão das Rochosas, a partir de Denver, capital do Colorado, muda demais ao longo do ano. É verão e se fosse em outra estação, principalmente o inverno, seria neve pura cobrindo tudo, pois são 1.600 metros de altitude (é chamada a cidade das mil milhas). No momento, nos picos aparecem apenas algumas manchas de gelo teimoso, sobras do degelo da primavera.

A semelhança vai além e explica por que o Colorado é considerado estado irmão de Minas Gerais, condição relacionada com uma cooperação mútua em certos setores. Os dois se notabilizaram por suas enormes reservas de minerais, notadamente ouro, e experimentaram em época aproximada, o século dezenove, as corridas em busca da fortuna escondida debaixo da terra. Como temos Ouro Preto, aqui existe a cidade de Golden, onde, como na antiga capital mineira, funciona uma conceituada escola de minas.                                                                   

Em muitos locais do estado restaram buracos abertos pelos mineradores. Hoje recebem visitantes curiosos. Ainda é possível ver garimpeiros de horas vagas, bateias à mão, divertindo-se ou mesmo lucrando com as pepitas que sobraram nos córregos. Neste ponto central do território norte-americano, o “boom” se deu antes das descobertas na Califórnia, cujas montanhas debruçam sobre o Oceano Pacífico. O Colorado ficou com a história, as montanhas esburacadas como queijo suíço e as cidades-fantasmas abandonadas pelos mineradores, algumas preservadas como museus da era de ouro e cenário de faroeste.

Os interessados nas instituições políticas dos Estados Unidos aqui podem focar um tema específico, o sistema eleitoral. Uma associação local destina-se a estimular a presença dos estadunidenses no processo eleitoral. Esse trabalho tornou-se oportuno diante da verificação de crescer a cada pleito eleitoral a abstenção dos eleitores, cuja presença não é obrigatória. Quando o percentual de ausências começou a persistir acima dos 40 por cento surgiram os movimentos com vistas a evitar que, a seguir esse curso, os Estados Unidos poderiam criar uma democracia sem povo.

Vou, então, a uma associação cuja diretora relata que desde a eleição de John Kennedy, em 1960, a participação dos eleitores tinha caído regularmente, com um só momento de ascensão em decorrência da mobilização popular em torno de Jesse Jakson, em 1984 (ocorreria movimento semelhante com Barack Obama, em 2008). A campanha pregava o alistamento eleitoral dos jovens no momento de tirar a carteira de motorista, aos 18 anos. Eram curiosos os “slogans” dos cartazes da campanha, como “tornar-se eleitor não é tão bom quanto uma boa noitada ou fazer dois pontos no basquete, mas vale a pena”. Acompanhavam exortações do tipo “votar é um direito, não uma obrigação. É como ir à igreja: vai quem quer. Mas temos de convencer a todos que o voto pode mudar a vida de cada um”.

A diretora seguiu para uma sala a fim de exibir uma novidade. Um exemplar de máquina de votar ainda em experiência. Com estrutura de madeira e lona, poderia ser a alternativa para facilitar as eleições tanto nos EUA quanto no Brasil, onde o sistema informatizado só estrearia no pleito de 1996 e em caráter experimental. Fez uma breve demonstração, após a qual concluí: aquela geringonça de manuseio complicado estava destinada ao insucesso e abandono.

Os Estados Unidos não conseguiram conter o processo. A abstenção dos aptos a votar, os maiores de l8 anos, tem oscilado. Na década de 1960 esteve na casa dos 40%, subiu na década seguinte, mas voltou a cair e neste século o melhor resultado (34%) foi em 2020, na eleição de Biden. A média permaneceu baixa.

Quanto a nós, mesmo com o voto obrigatório a abstenção compromete. No primeiro turno das eleições gerais deste ano, o índice de abstenção no primeiro turno ficou em 21,08%, significando a sequência de uma queda progressiva de presença ao longo de quase vinte anos. A melhoria no segundo turno (19,22%) pode ser episódica e produto de uma histórica e surpreendente virada que analistas de várias tendências tentarão explicar.

A abstenção é um problema. Para os norte-americanos e para nós, porque representa estar a democracia perdendo substância e legitimidade por não corresponder aos anseios coletivos.

Ariosto da Silveira é jornalista. Publicou “Os Estados Unidos que eu vi” em 2024

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