Caprichos humanos (por Luis Giffoni)

Leh fica no norte da Índia, perto da fronteira com o Paquistão [...]

Dizem que Veneza é o exemplo acabado do capricho humano. Senão, como explicar sua construção sobre cento e dezoito ilhotas com o Adriático pela frente, sujeita a inundações, problemas de fundação e caríssima manutenção? O bom senso recomendaria erguê-la a alguns quilômetros do litoral, sem perder a proximidade do mar. O capricho, no entanto, optou pelo meio da laguna. Deu certo. Há mais de mil anos, entre os quais se contam alguns séculos de completo domínio do comércio marítimo, Veneza encanta as gerações.

Há, no Brasil, exemplos de capricho humano. Belo Horizonte é um deles. Nasceu no meio do nada, destinada a ser capital. Depois, com o mesmo intuito, desbravamos o Planalto Central e fizemos Brasília.

Existe uma cidade que transcende o capricho, ultrapassa a teimosia e beira a obstinação. Chama-se Leh, fica no norte da Índia, perto da fronteira com o Paquistão. No meio de montanhas nuas, a mais de quatro mil metros de altitude, lá quase não se consegue respirar. De vez em quando, um terremoto a destrói. De dia, o Sol torra o solo; à noite, a temperatura pode atingir quarenta graus negativos. A chuva e a neve são tão raras, que as casas possuem telhado de barro batido, uma frágil laje sustentada por gravetos entrelaçados. Para plantar a cevada e o trigo, traz-se a terra de longe e constroem-se canteiros nos quintais, contidos por muros. A agricultura escala a encosta em degraus de pedra.

Não bastassem os transtornos da natureza, há os humanos. Para dificultar ataques terroristas ou bombardeios noturnos, a luz elétrica é cortada ao anoitecer. No escuro, fica mais complicado localizar os objetivos. Ao embarcar nos aviões, as mulheres passam por sete minuciosas revistas. Os homens, por oito: um soldado meio acabrunhado se dedica a apalpar o saco escrotal de cada passageiro, pois ali pode estar escondida uma granada. Já se encontraram várias.

Pode ficar pior? Os lehenses acreditam que sim. Quando andei por lá, visitei uma fortaleza antiga. Como uma placa dava boas-vindas aos forasteiros, entrei sem receios no lugar. Ninguém apareceu, comecei a explorar as vielas. Encontrei um templo cuja porta se achava em péssimo estado de conservação, cerrada por fecho de madeira similar ao das porteiras de nossas fazendas. Ao tentar destrancá-la, aconteceu um corre-corre. Choveu gente de todos os cantos, gritando em desespero, contendo-me.

Aquela era a morada da deusa Khali, a Terrível, pior que todos os demônios juntos. Aberta a porta, eu liberaria a fúria da divindade em seu auge, isto é, mais ou menos meio século depois de aprisionada. Apenas uma vez a cada cem anos, quando Khali perde a agressividade, é permitido o acesso ao templo. Quem aparecer por lá no ano 2050, se não me engano, poderá participar da grande cerimônia de sua soltura e contemplar, sem perigo, sua pele lambuzada de sangue, os dentes e língua protuberantes e a guirlanda de caveiras e mãos decepadas.

Viver em Leh é a quintessência do capricho humano. Apesar das vicissitudes, seus habitantes estão sempre sorrindo. A julgar pelo ar de felicidade que exalam, o capricho compensa.

Luis Giffoni é Escritor e Membro da Academia Mineira de Letras

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