
Historiadores apontam duas transformações drásticas na nossa história. A primeira, faz dez mil anos, sedentarização de muitos grupos humanos que abandonaram o nomadismo. Esta criação de cidades trouxe enormes consequências.
A segunda foi a Revolução Industrial – cujos salpicos ainda persistem.
Com o aumento dramático de produtividade (na indústria e agricultura), tornou-se possível oferecer uma vida digna para quase todos, pelo menos, nas sociedades em que esta revolução ocorreu. Mas, O Capital e o Manifesto, de K. Marx são suficientes para lembrar dos sacolejos ocorridos e que os benefícios custaram a chegar para os mais pobres.
A era dos confortos
Obliterado por essas transformações explosivas e controvertidas, há uma outra revolução, bem menos lembrada: o aumento no conforto pessoal da vida cotidiana. O movimento nasce na Inglaterra, no século XIX. De um privilégio das elites, vai se democratizando. Atinge classes mais baixas e sociedades mais pobres.
Hoje, não nos damos conta das asperezas no dia a dia de então.
Nem sequer existia a própria noção de que a vida poderia ser mais confortável.
O século XIX presenciou uma enxurrada de inovações, criando um novo cotidiano. O penico e a “casinha” lá fora dão lugar a vasos sanitários, confortáveis e inodoros. Banheiras e chuveiros substituem as tinas. A água quente, antes trazida em chaleiras, passa a jorrar das torneiras. Esgotos substituem regos a céu aberto – trazendo uma redução dramática nas doenças infeciosas.
Não existia algo tão simples como uma cadeira confortável. Sofás e poltronas, nem pensar. Não havia sabão, para lavar roupas e o próprio corpo.
Mais adiante, vem a iluminação elétrica. E não subestimemos o impacto dos fogões a gás. Quando nada, eliminaram o exercício diário de rachar lenha. Os elevadores, máquinas de lavar roupa e automóveis chegam mais adiante. O ar condicionado se difunde na segunda metade do século XX. E provoca, nos Estados Unidos, um progressivo deslocamento das gentes, do Norte frio para o Sul mais tépido.
Promover o conforto pessoal virou quase uma religião – impulsionada pelos avanços da indústria. Do colossal shopping center, até o celular, há uma corrida desabalada para inventar soluções e traquitanas – algumas até resolvem problemas que nem sabíamos existir.
Nossas vidas cotidianas estão intimamente empapadas nesses instrumentos que reduzem desconfortos. Porém – sempre há essa preposição adversativa – a evolução é imperfeita. Restam pequenos estorvos e tropeços que azedam o nosso cotidiano. O presente ensaio é sobre tais chatices.
As areias movediças da burocracia digital
Nosso mundo parece moderno e eficiente. Mas esconde armadilhas no caminho. Muitas estão nas inevitáveis confrontações com as burocracias digitais – públicas e privadas – mais, as ciladas nelas espreitando. Comecemos com uma coleção de pequenos aborrecimentos, diante dos quais, somos inexplicavelmente vulneráveis e impotentes.
Assinamos uma revista, um contrato de fibra ótica ou com uma empresa telefônica. Estávamos acostumados, se cansamos daquele pão, mudamos de padaria. Mas como cancelar uma dessas assinaturas ou contratos? Somos vítimas de máquinas infernais, capazes de bloquear indefinidamente a nossa decisão de recusar o produto ou serviço. Seria bem fácil criar uma legislação para facilitar tais divórcios, mas até agora…
Costumo dar uma espiada nos muitos leilões que andam por aí. Durante o COVID, passaram todos para a Internet, permitindo consultar o catálogo e dar lances, mesmo do outro lado do mundo. Mais ainda, há um sistema integrado de acesso e regras comuns. Grandes avanços.
Porém, os regulamentos são arcaicos, parecem feitos por advogados parados no tempo. Uma devolução só pode ser aceita se precedida por uma perícia da peça comprada. Quase sempre, vence o prazo para contestar, antes de chegar a peça arrematada. Quem compraria uma máquina fotográfica cara, se pode não estar funcionando e não há devoluções? É uma burrice, pois só será vendida se o preço for ridiculamente baixo, compensando o risco de ter defeitos. Nos pagamentos, como há o antiquário e o leiloeiro, não são infrequentes as confusões. E, por aí afora.
Nos países de tradições árabes, demoradas negociações entre clientes e vendedores chegam a ser passatempo nacional. Impensável uma compra sem longas e tortuosas trocas verbais. Nesse particular, estão à nossa frente, pois temos piores desafios, diante de múltiplos becos sem saída da informática. Com frequência, lutamos contra máquinas dotadas de paciência ilimitada e labirintos impenetráveis. Em vez dos floreios da barganha árabe, lutamos sem quartel e sem sucesso para convencer as máquinas.
Comprar na Internet é um avanço espantoso. Porém, nem sempre o final é feliz. Trava, some o botão a ser pressionado, volta para o mesmo lugar. O sapato vem do tamanho errado. Recebi uma pulseira de contas plásticas, em vez de uma ferramenta de marcenaria. Troca sem sucesso. Não há a quem reclamar, pois é inexpugnável o acesso a seres humanos. Por vezes, recebemos uma resposta sem sentido, pois a máquina traduziu – errado – do chinês para o inglês e, dai, para o português – ainda mais errado.
Parece que a interfaces dos sites e aplicativos foram construídas por uma garotada que já nasceu mergulhada no digital e deriva um certo prazer sádico em oferecer desafios ao usuário. Para eles, o site é concebido como um desses videogames, nos quais são criados sucessivos desafios a serem vencidos. Vemos o anúncio de uma panela, baratíssima. Abrindo o site, é apenas o preço da tampa. E por aí afora. E a batalha das senhas?
Podemos embirrar com o Mercado Livre ou o Amazon. Mas lidar ou não com o serviço público não é uma opção. Como deixar de buscar a guia de impostos a serem pagos? Pior, as barreiras informáticas estão criando dificuldades sérias para os mais velhos. Quem passou mais de meio século enfrentando filas e guichês, agora tem que decifrar os meandros de links misteriosos e traiçoeiros. E sempre há o risco de alguma cilada.
A batalha da privacidade
Um dos grandes avanços, desencadeados pela Revolução Industrial, foi o direito à privacidade. Parece inacreditável, mas ter seu próprio quarto é uma novidade com menos de dois séculos.
Avançamos nesta e em outras linhas. Mas há escorregões. Será que não temos o direito de não sermos aborrecidos por um dilúvio de chamadas telefônicas, tentando vender alguma coisa? Há antídotos, mas ainda são bem imperfeitos. Quando eram telemarketeiros humanos, ainda tínhamos o consolo de reservar para eles os mais horrendos palavrões. Mas de nada adianta esbravejar contra gravações.
Domamos um pouco melhor o spam no e-mail. Ainda assim, espreitam riscos e dá um trabalhinho proteger-se dos múltiplos contos do vigário digitais.
Direito ao silêncio faz parte do portfólio da privacidade. Mas, o barateamento da eletrônica milita contra. Os alto-falantes berram. Há o sermão do padre, as pregações para os crentes, os anúncios de pamonhas! Para não falar nas festas do vizinho. Faz tempo, escrevi um ensaio sobre barulho. Contou-me um leitor que estava sendo processados criminalmente, por haver abatido a tiros o sistema de som do vizinho.
E na madrugada, as motos? Um bom psicólogo deve ser capaz de explicar o supremo deleite de incomodar os ouvidos de outrem. No caso, as vítimas podem ser quarteirões inteiros.
As pequenas complicações na Era do Conforto
Quantos brasileiros entendem juros compostos? Quantos sabem calculá-los? Pois bem, em tudo que compramos a prazo, pagamos juros. Será a taxa extorsiva? Como sabê-lo? Por que não tornar obrigatória a sua menção, ao mostrar o preço?
Os aparelhos que nos cercam podem ser maravilhas da modernidade. Nada mais amigável do que uma geladeira. Basta ligar na tomada. O resto, ela decide, ela faz. Talvez peça socorro, ao cabo de trinta anos.
Mas, como é possível que um único televisor requeira dois controles remotos, cada um com dezenas de teclas. E quantas centenas de canais? Como não tenho TV, nunca tentei decifrar esses assuntos. Mas vejo pessoas perfeitamente normais que, ano após ano, não conseguem se fazer obedecidas pelos seus aparelhos.
O que parece ser outra manifestação da guerra entre gerações está nos manuais de instrução dos aparelhos que compramos. Não chequei, mas uma betoneira deve vir com um par de páginas impressas, tamanho ofício. Porém, ao reduzir-se o tamanho do artefato, as letras do manual vão também ficando menores. Um relógio digital traz um papelzinho indecifrável, mesmo com uma boa lente. Uma hipótese é que foi tudo feito por garotos com visão 20/20 e profundo desprezo pela velharia.
Para quem vos escreve, permanece o mistério. Nos vidrinhos oferecidos nos hotéis, por que são praticamente ilegíveis as letrinhas que identificam o xampu e o condicionador? Há que sair pingando do chuveiro, para pegar os óculos.
Já que falamos de iluminação, vale lembrar muitos elevadores, cuja iluminação está no teto, bem fraquinha. Dado o ângulo, não ilumina as teclas. Felizmente, os celulares agora têm lanternas. Porém, a saída para a rua pode ser “P”, “T” ou “L”. Como sabê-lo?
Cronicamente, os quartos de hotel ofereciam uma iluminação que não permitia a leitura. Que poucos reclamassem ilustra o grau de analfabetismo de nossa sociedade. Aleluia! O barateamento dos LEDs melhorou a situação em alguns hotéis. Em compensação, a mais reles birosca tem à sua porta uma dessas lâmpadas poderosíssimas, capazes de ofuscar quem passe perto. Elas por elas, ganhamos ou perdemos?
Faz pouco, o The Economist noticiou o grande aumento na frota de motos na América Latina. Louvavam-se os benefícios para os menos endinheirados. Porém, pelo menos em Belo Horizonte, motos não podem estacionar nas ruas mais movimentadas. Apenas autos são permitidos. Para os plebeus motoqueiros, há áreas reservadas. Mas são pouquíssimas e estão sempre abarrotadas. Na lógica da mobilidade, no espaço de parqueio de um carro, cabem umas dez motos. E os que saem às compras de carro, por não poder estacionar a moto? Terminam por obstruir muito mais o trânsito.
Um policial ou um funcionário público que cometa um desatino ou desfalque, arrisca-se a um bom período no xilindró. Porém, terá impunidade total se cometer, a cada dia, uma sequência de pequenos deslises, ofensas, sabotagem burocrática ou a prática de outros atos que incomodam o cidadão comum. Contra esses espinhos pequenos, mas incômodos, nada conseguimos fazer. Somando a infinidade de horrores que nos infringe a burocracia, será não que trazem mais estorvos à sociedade do que aquele ato, suficientemente grande, para despertar a justiça do seu torpor? Nada a se fazer?
As maravilhas na arte da embalagem – e os horrores
No início dos anos noventa, meu trabalho me levou à Rússia. A iniciativa privada despontava. Soube de um plantador de ameixas que despachou a sua colheita para vender em Moscou. Ao chegar, no caminhão, havia apenas suco de frutas. Lá, a indústria da embalagem não havia dados os seus primeiros passos. Em contraste, subestimamos os avanços nessas artes, desafiadas para transportar ovos ou taças de cristal. Mais de vinte mil produtos diferentes chegam a um supermercado, testemunhando a competência do setor.
Ainda assim, há pequenos tropeços. Quem é capaz de desembalar um pacotinho de paçoca, sem que o bloco se esboroe em suas mãos? Quem consegue abrir uma geleinha de hotel, sem lambuzar os dedos? E as torradinhas que se espatifam, ao lutarmos para abrir as suas embalagens? E as tampas exigindo dedos de aço? E as embalagens plásticas, duras e transparentes, responsáveis por muita sangueira nas mãos?
Epílogo: há curas?
Não paremos de louvar esse bendito conforto, inaugurado na Revolução Industrial. Trouxe imenso bem estar material às nossas vidas. São quase dois séculos de trajetória, entre o abandono do penico e ter um celular com Waze.
Porém, os acertos são no atacado. Sobrevivem muitos tropeços no varejinho do nosso cotidiano. Temos que aceitar tais incômodos?
Nenhum desses entraves seria difícil de resolver. Por que isso não acontece? Uma hipótese é que catástrofes mobilizam impulsos poderosos. Há que domar o Covid, há que conter a enchente. Mas as pequenas chatices não atingem um limiar de irritação que gere providências eficazes.
Claudio de Moura Castro é Ph.D. em Economia pela Universidade de Vanderbilt. Foi Professor Visitante em várias Universidades, como Chicago, Genebra, Borgonha, FGV, Brasília. Foi Presidente da CAPES. Autor, Prêmio Jabuti.



