
Não é bacana achar ruim envelhecer. Mas confesso que também não é das tarefas mais simples.
Este texto, por exemplo, era para ser maior. Nem sei por que vou terminá-lo. Talvez porque a idade ensine uma coisa curiosa: nem toda conversa merece um discurso. Algumas pedem apenas uma cadeira na calçada, um café morno e o direito de ficar olhando o movimento sem a obrigação de chegar a lugar nenhum.
Ele deveria discutir a estranha alegria de nos tornarmos aquilo que nos tornamos, mas vai acabar antes.
Primeiro porque estou com preguiça.
Segundo porque desconfio que boa parte da vida adulta seja exatamente isso: fingir que entendemos o caminho enquanto carregamos, discretamente, as dúvidas de sempre.
A diferença é que agora elas vêm acompanhadas de remédios organizados por horário.
Talvez seja por isso que certas coisas da infância permaneçam. Não por utilidade.
Muito menos por lógica. Permanecem porque se recusam a sair. Instalam-se em algum canto da memória, puxam uma cadeira e ficam. E nós, que já expulsamos tanta gente, tantos planos e algumas certezas, acabamos aceitando mais um café.
No fim, envelhecer talvez seja apenas trocar algumas ilusões por um abajur aceso. A luz é menor, mais amena e não alcança tão longe. Em compensação, ilumina exatamente o que importa. E, convenhamos, nessa altura do campeonato, já não é pouca coisa.
Raul Filho é Professor, Geógrafo, Doutor em Sociologia da Educação



