Em busca do sanduíche perdido (por Luís Giffoni)

A memória tem suas idiossincrasias. Falha na hora errada [...]

A memória tem suas idiossincrasias. Falha na hora errada, por exemplo quando perde o assunto na hora de escrever. Em compensação, surpreende, recuperando recordações supostamente enterradas. Certa vez, em Morro Bay, na Califórnia, um local à primeira vista sem significado algum para mim, descobri que havia estado lá. Não, nada de reencarnação ou de vida passada. Mas, para dizer a verdade, chegou perto. Quando deparei contra o céu o perfil da enorme pedra que dá nome à cidade, combinado ao grito de centenas de gaivotas pousadas sobre a rocha, viajei até trinta anos antes. Lembrei-me de que, sim, havia passado pelo lugar. Tanto tempo – uma vida, ou quase – tinha adormecido a lembrança, a ponto de considerar a segunda visita como se fosse a primeira. A agradável surpresa terminou ao perceber que não sabia onde tinha deixado a chave do carro. De fato, a memória tem suas idiossincrasias.

Visitava Morro Bay a caminho de San Francisco, de certa maneira para testar a memória. Viaja-se pelos motivos mais diversos: um parente, um negócio, um restaurante, um espetáculo, um amor. Pois viajava para recuperar o gosto de um sanduíche comido justamente três décadas antes. Adoro sandubas e não me lembro de outro tão saboroso. Especial. Único. E o que nos lega a vida senão alguns desses pequenos grandes prazeres?

Era suculento, preparado na hora, à minha vista, somava um generoso rosbife ao ponto com um pão italiano recém-tirado do forno. Quanto ao tamanho, hoje não conseguiria comê-lo de uma vezada. Acompanhado de alface crocante e de molho da própria carne, os sabores se harmonizavam e se enriqueciam.

Para completar, eu padecia de terrível fome, apetite de adolescente controlado apenas pela pouca disponibilidade de dinheiro. Por tudo, a refeição virou uma festança para os sentidos e para a saudade.

Lembrava-me de tê-lo comprado num lugar aberto, com muita gente ao redor. Por exclusão, fiquei com o porto de San Francisco, o Fisherman’s Wharf.  Fui até lá. Sem demora, encontrei a sanduicheria, no extenso mercado à beira-mar. Melhor dizendo, concluí que a tinha encontrado. Várias barracas vendiam o petisco, agora bem menor.

Minhas papilas entraram em alvoroço. Estava prestes a recuperar o sabor da adolescência. Tudo se encaixava: a carne possuía o mesmo aspecto, vermelhinha no meio, o pão saía do forno, o cheiro inundava o ambiente. Pedi o sanduíche, no capricho. Paguei por uma fatia extra de carne. Cravei os dentes. Mastiguei com sofreguidão.

O gosto, muito bom por sinal, não era nem de longe aquele que eu preservara. A delícia perdera o encanto, virara comida, curiosidade, idiossincrasia da memória. Por que insistira em refazer um passado perdido? Esquecera-me da obviedade: a primeira vez é única.

Enquanto mastigava, aprendi a lição. Os momentos são todos únicos. Inclusive o da frustração com um pedaço de pão com carne. Como poderia ter dito Heráclito, não se come o mesmo sanduíche duas vezes.

Luis Giffoni é Escritor e Membro da Academia Mineira de Letras

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