Quando um país de torna fantasma de si mesmo (por Vera Helena Castanho)

O primeiro impacto que a cultura popular associa à ideia de um fantasma é o de algo assustador [...]

O primeiro impacto que a cultura popular associa à ideia de um fantasma é o de algo assustador. Uma presença que provoca ameaça, medo, estranhamento, inquietação.

É uma imagem que está ali, possivelmente visível, mas cuja representação carrega algo de vazio: uma forma sem preenchimento, um contorno sem matéria, uma presença sem corpo.

Talvez seja justamente essa contradição em um fantasma que nos assuste: alguma coisa está diante de nós, reconhecível, mas o que deveria habitá-la já não está lá.

Há forma. Não há substância.

Também na vida, nem sempre basta saber se algo existe. Há situações em que precisamos perguntar o que ainda o preenche, ou quanto de vida existe naquilo que se apresenta diante de nós.

Uma instituição pode continuar existindo e perder credibilidade.
Uma relação pode permanecer e perder confiança.
Uma sociedade pode conservar suas estruturas e começar a perder referências.

É nesse território que o fantasma deixa de ser uma imagem sobrenatural e se torna profundamente humano.

Nesta semana, duas realidades aparentemente muito distantes me levaram a pensar sobre presença, ausência e futuro.

Uma delas foi a história de Lito Sousa.

Um cidadão comum que transformou conhecimento em comunicação e reuniu milhões de pessoas em torno de uma paixão: a aviação. Explicava o complexo de maneira compreensível e ajudava pessoas a entender aquilo que desconheciam e, muitas vezes, a perder o medo de voar.

De repente, foi ele quem precisou pedir ajuda.
Diagnosticado com uma doença neurológica rara, progressiva e incurável, Lito tornou pública sua busca por alguma possibilidade de tratamento.

A resposta foi extraordinária.

Pessoas que nunca o haviam encontrado se mobilizaram. Seguidores chegaram às redes de instituições de pesquisa e empresas farmacêuticas. Pesquisadores foram procurados. Autoridades públicas foram acionadas. A Anvisa autorizou a importação e o uso de uma medicação experimental.

Não foi suficiente para vencer o tempo.

Lito morreu aos 59 anos, apenas 41 dias depois de tornar público seu diagnóstico.

Mas alguma coisa muito importante aconteceu naqueles 41 dias.

Um homem vulnerável conseguiu mobilizar uma coletividade.

Talvez porque reconhecemos nele alguma coisa profundamente nossa.

A fragilidade diante daquilo que não controlamos. A recusa em desistir enquanto ainda existe uma possibilidade. A necessidade de acreditar naquele 1% quando os outros 99% parecem já decididos.

E, sobretudo, a capacidade humana de continuar pensando no amanhã quando o amanhã já não nos pertence inteiramente.

Lito não sabia quantos dias teria.
Deixou vídeos para os aniversários futuros do filho.

Não precisamos possuir o futuro para cuidar dele.

Talvez seja exatamente isso que uma sociedade também precise compreender.

Vivemos um tempo em que acontecimentos sucessivos colocam à prova nossa confiança nas instituições, nas relações entre poder e interesse, na independência daqueles que decidem e na capacidade das estruturas públicas de continuarem reconhecíveis para o cidadão.

E não é preciso escolher aqui uma ideologia, um partido ou um personagem.

Estou falando de algo anterior.
Estou falando de confiança.
Confiança é uma dessas estruturas invisíveis que sustentam uma sociedade.

Não aparece nos edifícios públicos.
Não está escrita integralmente em nenhuma Constituição.
Não ocupa uma cadeira em tribunal algum.

Mas experimente retirá-la da vida coletiva.

Quando o cidadão começa a não compreender onde termina o interesse público e começa o privado. Quando poder, dinheiro, relações e decisões parecem misturar-se. Quando as instituições que deveriam oferecer contorno, passam elas próprias a integrar o campo das dúvidas, alguma coisa muito mais profunda do que uma crise circunstancial começa a acontecer.

Perdemos referências.
E talvez seja aí que apareça o fantasma.
Porque uma democracia não desaparece apenas quando suas instituições deixam de existir.

Os tribunais podem continuar funcionando.
O Congresso pode continuar se reunindo.
As leis podem continuar escritas.
As eleições podem continuar acontecendo.
Os cidadãos podem continuar comparecendo às urnas.

Tudo permanece aparentemente no lugar.

Mas uma pergunta começa a atravessar silenciosamente a sociedade:
O que ainda habita essas estruturas?

E esse talvez seja um dos maiores riscos do nosso tempo: não aquilo que ainda nos revolta, mas aquilo diante do qual já não reagimos.

Por isso volto a Lito.

Sua história produziu uma espécie de levante humano. Pessoas comuns descobriram que podiam fazer alguma coisa.
Compartilhar. Procurar. Pressionar. Perguntar. Tentar abrir uma porta.
Não sabiam se conseguiriam.
Fizeram assim mesmo.

Talvez cidadania também seja isso.

Não a certeza de que nossa ação produzirá o país que desejamos, mas a consciência de que existe uma parte do futuro pela qual somos responsáveis.

E há uma responsabilidade menos ruidosa, talvez mais difícil: permanecer na realidade sem entregar a ela os nossos princípios.

Nem toda convivência significa concordância. Nem toda interlocução significa adesão. Nem toda possibilidade construída dentro de uma realidade imperfeita significa conformidade com ela.

Uma sociedade não se reconstrói apenas pela indignação.
É preciso discernir.
Preservar o que funciona. Relacionar-se com o que existe. Reconhecer possibilidades. E continuar exigindo transformação onde ela é necessária.

Discernir não é aderir. Conviver não é renunciar aos próprios princípios.

Talvez seja justamente aí que a cidadania deixe de ser apenas uma posição e se transforme em responsabilidade.
Fazer hoje o que talvez só possa amadurecer amanhã.
Não permitir que a indignação se transforme em indiferença.
Não permitir que a impotência nos dispense da responsabilidade.
Não permitir que aquilo que talvez não consigamos concluir nos impeça de começar.

Lito não pôde permanecer.
Mas deixou presença.
Deixou conhecimento. Deixou afeto. Deixou uma comunidade mobilizada.

Esse é um fantasma que não assusta.

O que deveria nos assustar é o fantasma contrário.
A instituição que permanece depois que o princípio desaparece.
A cidadania que existe como direito, mas deixa de ser exercida como responsabilidade.
O país que continua de pé, mas já não acredita suficientemente em si mesmo.

Talvez nossa tarefa seja não permitir essa inversão.

Continuar pensando.
Continuar discernindo.
Continuar perguntando.
Continuar participando.
E continuar construindo aquilo em que acreditamos, mesmo que talvez não tenhamos tempo de ver.

Um país se torna fantasma de si mesmo quando perde a confiança de que ainda vale a pena construir o amanhã.

O mundo de hoje atravessa problemas profundamente humanos e civilizatórios.

Que nos inquietemos sem hostilidades.
Que critiquemos sem palanques.
Que busquemos saídas sem a ingenuidade de acreditar em soluções fáceis.
Que consigamos discernir, preservar princípios, participar e continuar construindo.

Talvez seja assim que forma e substância possam voltar a se encontrar.

E haverá substância sustentando a forma.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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