
Ninguém estranha a invasão da coletividade por essa enchente de mensagens pretensas de influenciar ora num sentido, ora no outro. É impiedoso. Os meios de comunicação são inundados de peças para “fazer a cabeça” do público, seja no formato típico da propaganda ou em tantos outros meios, multiplicados pelas redes sociais, discursos, entrevistas e tudo o mais que possa convencer e direcionar as mentes num determinado rumo. É o papel dos produtores e outros especialistas no processo de convencimento das massas. Cumprem a tarefa com eficiência e nos limites da ética, geralmente. Não lhes sejam imputadas tentativas de conscientemente trocarem a verdade pela imagem projetada. Usam os instrumentos a cada dia postos à disposição de quem saiba manejá-los. Cabe ao público a busca pela realidade, atitude indispensável num período eleitoral como o que corre velozmente para a hora do voto.
Um dos vários autores a abordar a questão, o francês Guy Debord, em publicação de 1967 sobre o que chamou de “era do espetáculo”, adverte quanto a aparência tornar-se “mais importante que a realidade”. Essa posição pode ser arguida em face de sua posição política anticapitalista, mas não invalida as advertências do risco de uma substituição, no comportamento coletivo, das realidades pelas imagens a respeito delas produzidas com a finalidade de influenciar. Seria a troca da autenticidade por sua representação, modelada no sentido de obtenção de um certo resultado.
Se tudo já estava misturando realidade e imagem, a inteligência artificial potencializou. Nem mesmo as pessoas atentas – e os mineiros mais desconfiados – conseguem distinguir se a imagem criada é mesmo real ou um retrato falso, de laboratório. No habitual gosto por termos e expressões inglesas, essas criações são chamadas de “fake news”, ou notícias falsas, mas extrapolaram passando a representar situações muito mais amplas. Não se trata mais de noticiar o não-fato, mas de inventar e dar forma a personagens, dar-lhes ideias e voz para expressá-las e organizar um ambiente capaz de autenticar todo o quadro. Ditas manobras tornaram-se acessíveis a um grande número de usuários dos equipamentos e soluções criadas pela grande indústria de novíssima geração. Dessa forma, amplia-se potencialmente o campo de abrangência das mensagens irreais e numa aparência em face da qual a maioria da coletividade não dispõe de argumentos de contestação.
Estamos como o sertanejo da literatura mineira: “Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa”. Então, se não é possível, pelo menos de pronto, conhecer o fato por trás da imagem, que se exercite a crítica de estar diante de uma inverdade, que o mostrado ou dito na realidade é outra coisa e até querem escondê-la. Nessa linha está não acreditar nas promessas impossíveis de candidatos sem compromisso algum com os seus eleitores, talvez consigo mesmos.
Ariosto da Silveira é jornalista. Presidiu o Centro de Cronistas Políticos e Parlamentares de Minas Gerais (Cepo)



