
A morte de Zuenir Ventura me tocou de um jeito muito particular. Talvez porque, para quem cresceu vendo o pai entre livros, jornais, textos e histórias, alguns escritores acabem se tornando companheiros de formação.
E isso me remete a 1971, quando papai precisou “sair de férias” depois do AI-5.
Li seus textos, acompanhei sua trajetória e admirei, ao longo dos anos, aquela combinação rara de inteligência, cultura e simplicidade. Zuenir escrevia sobre o Brasil com a capacidade de enxergar, por trás dos grandes acontecimentos, as pessoas, seus dramas, contradições e pequenas histórias.
Ele era mais próximo de meu tio Ferdy do que de meu pai. Ainda assim, guardo muitas lembranças dos três no Bar Jangadeiros, em Ipanema, quando papai voltou das suas “férias”. Eu devia ter uns onze ou treze anos.
Talvez seja justamente por isso que, ao pensar em Zuenir, eu me lembre também de Ferdy Carneiro e de meu pai.
Ferdy eu conhecia desde menino. Para uma criança, parecia reunir tudo o que despertava admiração: escrevia no Pasquim, dirigia cinema, ajudou a fundar a Banda de Ipanema, era conhecido, respeitado e transitava com naturalidade por um mundo que me parecia fascinante.
Mas tinha uma qualidade ainda mais rara: fazia um garoto se sentir importante apenas por ter um tio importante.
Lembro da sensação de estar por perto daqueles nomes que eu via na televisão e nos jornais, e perceber que as pessoas cumprimentavam meu pai e meu tio com respeito e consideração. Eu não entendia completamente as razões daquela admiração, mas percebia que havia algo especial ali. E, como toda criança, sentia orgulho daqueles homens admirados serem quem eram.
Com o tempo, fui compreendendo melhor. O prestígio de Zuenir não vinha da amizade com meu pai ou com meu tio. Vinha da inteligência, da cultura, da curiosidade permanente e da qualidade do que escrevia. Carregava uma elegância intelectual que nunca precisou ser anunciada.
Talvez por isso a lembrança de um tenha me levado tão naturalmente aos outros.
Minha formação humanista certamente deve algo aos três.
A Zuenir, pela admiração construída na leitura.
A Ferdy, pela experiência concreta de ser meu tio.
E ao meu pai, que ainda na infância me permitiu compreender, sem discursos, o valor da democracia.
Por isso, a morte de Zuenir não me parece apenas a despedida de um grande brasileiro. Ela também me faz revisitar uma parte da minha própria história. Faz lembrar daquele menino que observava o tio famoso, o pai recém-saído do exílio e o escritor que mais tarde se tornaria imortal da Academia.
Hoje sei que não era magia. Era talento, trabalho, sensibilidade e inteligência.
Talvez esse seja o mais bonito mistério da memória: às vezes, a despedida de alguém que admiramos nos devolve, por alguns instantes, à companhia daqueles que amamos.
Beijo, pai.
Raul Filho é Professor, Geógrafo, Doutor em Sociologia da Educação



