Noruega mantém desmatamento perto de zero e suas florestas continuam crescendo

A Noruega explora madeira, possui uma indústria florestal ativa e ainda perde algumas áreas para [...]

A Noruega explora madeira, possui uma indústria florestal ativa e ainda perde algumas áreas para construções e estradas. Mesmo assim, conseguiu manter sua taxa anual de desmatamento em torno de apenas 0,05% da área florestal.

O número não significa desmatamento zero. Mas revela uma situação pouco comum: consideradas em escala nacional, as florestas norueguesas continuam acumulando madeira mesmo com a exploração florestal.

Entre 1990 e 2020, aproximadamente 1.800 km² de florestas foram convertidos definitivamente para outros usos. Cerca de 65% dessa perda esteve relacionada a construções e infraestrutura, 19% à conversão para pastagens e 14% à abertura de áreas agrícolas.

Ao mesmo tempo, o país continua cortando árvores em grande escala.

E é justamente aí que aparece um dos aspectos mais interessantes do caso norueguês.

Entre 2020 e 2024, o crescimento líquido das florestas foi de aproximadamente 19,3 milhões de metros cúbicos de madeira por ano, enquanto a retirada ficou em torno de 14,1 milhões de metros cúbicos.

Ou seja: em escala nacional, as árvores cresceram mais do que foi retirado, aumentando o estoque de madeira das florestas em aproximadamente 5,2 milhões de metros cúbicos por ano. Segundo o Instituto Norueguês de Bioeconomia (NIBIO), desde a década de 1950 a retirada permanece abaixo do crescimento anual das florestas quando se considera o país como um todo.

Isso acontece porque cortar uma árvore não é necessariamente o mesmo que desmatar.

Quando uma área é explorada para obtenção de madeira, mas continua destinada à floresta e volta a se regenerar, ela não é considerada necessariamente uma área desmatada. O desmatamento ocorre quando a floresta é convertida de forma duradoura para outro uso, como uma estrada, um empreendimento imobiliário ou uma área agrícola. Essa distinção também aparece nos relatórios oficiais noruegueses sobre uso da terra.

A Noruega também possui uma longa história de manejo florestal. No início do século XX, havia preocupação com o estado de suas florestas após longos períodos de exploração. Em 1919, o país criou seu Inventário Florestal Nacional  segundo o NIBIO, foi o primeiro país do mundo a estabelecer um levantamento florestal sistemático com o objetivo de apoiar o manejo sustentável.

Um século depois, a transformação é expressiva. Hoje, 37,7% do território norueguês é classificado como floresta, segundo dados de 2026 do Statistics Norway. O estoque de madeira ultrapassou 1 bilhão de metros cúbicos, contra cerca de 300 milhões de metros cúbicos há cem anos.

Isso não significa que tudo esteja resolvido. A expansão de estradas, casas e outras construções continua eliminando áreas florestais. E quantidade de madeira não é sinônimo de biodiversidade: uma floresta manejada ou recém-regenerada não necessariamente possui o mesmo valor ecológico de uma floresta antiga.

Além disso, os dados mais recentes revelam uma mudança importante. Embora o estoque nacional continue crescendo, existem grandes diferenças regionais. Em Innlandet, atualmente a retirada de madeira supera o crescimento, e o NIBIO alerta que, em algumas florestas do leste do país, a combinação de corte e mortalidade das árvores já ultrapassa o crescimento anual. Entre as causas estão o aumento da exploração, os efeitos da seca de 2018 e o envelhecimento de parte das florestas.

O país também levou sua política ambiental para fora de suas fronteiras. Desde 2008, a Iniciativa Internacional de Clima e Floresta da Noruega financia ações de combate ao desmatamento tropical em outros países. O Brasil ocupa um lugar central nessa política: desde o início da parceria, a Noruega já destinou cerca de 8,8 bilhões de coroas norueguesas ao Fundo Amazônia.

A experiência norueguesa mostra, portanto, algo mais complexo do que simplesmente “parar de cortar árvores”.

A Noruega não zerou o desmatamento. Mas conseguiu mantê-lo em níveis muito baixos e, apesar da exploração de madeira, seu estoque florestal nacional continua aumentando. O desafio agora é manter esse equilíbrio diante da queda do crescimento das florestas observada em algumas regiões.

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