
No sábado, publiquei uma frase de Carl Sagan:
“A ausência de evidência não é evidência de ausência.”
Penha Bof Boina comentou em seguida:
“Eu existo, mas muita gente acredita que eu não existo. Eu sei que existo, porém incomodo bastante, logo não existo.”
O comentário me tocou imediatamente. E eu lhe devolvi:
“Penha Bof Boina, exista! Muitos precisamos dos seus incômodos. O grito do desconforto precisa estar no ar para que sejamos chamados à atenção das realidades que insistimos em não enxergar.”
Há algo especialmente bonito no modo como esse pensamento nasceu.
Uma frase de Carl Sagan encontrou uma experiência que a reconheceu. Aquela resposta encontrou em mim outro sentido. E, desse encontro, nasceu uma reflexão que já não pertence inteiramente a nenhuma de nós.
É assim que uma ideia se amplia em nossas trocas, vida afora. Toca identificações, desperta experiências e recebe sentidos que não estavam inteiramente contidos em sua origem.
Uma inspiração encontra outra. O pensamento se desloca e a conversa deixa de ser apenas uma troca de palavras para se tornar construção compartilhada de sentido.
Talvez a inteligência humana também esteja aí: na capacidade de reconhecer no pensamento do outro algo que nos atravessa e, a partir desse encontro, enxergar além do que enxergaríamos sozinhos.
Aquela frase atravessa uma das formas mais silenciosas de violência: negar a existência daquilo, ou de quem, nos incomoda.
Nem sempre deixamos de reconhecer alguém porque não o vemos.
Às vezes, é justamente porque vemos e preferiríamos não ter visto.
Há pessoas cuja presença perturba a ordem aparente das coisas e do nosso mundo interno. Elas fazem perguntas quando o ambiente pede silêncio. Nomeiam contradições que todos aprenderam a contornar. Recusam-se a representar a harmonia onde existe conflito, a normalidade onde existe sofrimento, a justiça onde alguns continuam sem lugar.
E, então, tornam-se incômodas.
A sociedade dispõe de muitas maneiras de fazer alguém “não existir”. Pode não escutar. Pode desqualificar. Pode ridicularizar. Pode mentir. Pode transformar uma voz legítima em exagero, ressentimento ou inadequação.
Se o que essa pessoa diz ameaça a tranquilidade coletiva, é mais fácil questionar quem fala do que romper a inércia da visão e encarar aquilo que está sendo dito.
Mas o desconforto tem uma função humana essencial: interromper a nossa acomodação.
Chama-nos de volta à realidade.
Nem todo incômodo é ruído. Às vezes, é uma verdade procurando passagem. Uma experiência que ainda não encontrou linguagem. Um plano que ainda não encontrou saída. Uma existência que se recusa a desaparecer apenas para preservar o conforto dos demais.
Por isso, exista!
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



