
Em 2010, eu era um Tenente Coronel que saía da instrutoria da ECEME para cursar o Estado Maior no IMES (Instituto Militar de Ensino Superior) no Uruguai, durante meu curso, escrevi um trabalho chamado “Evolución del Arte de la Guerra después de 1945”. Dezesseis anos depois, reli o trabalho. E uma pergunta me incomodou, quanto do futuro que discutíamos naquela época já chegou sem que tivéssemos mudado na mesma velocidade?
Naquele trabalho escrevi que EUA, China e Rússia ampliavam o conceito de guerra da informação e que conflitos futuros poderiam atingir “hardware e software” pela internet. Também registrei que as grandes nações deveriam preparar-se para a ciberguerra e a guerra em redes, em um ambiente assimétrico e praticamente sem fronteiras.
O futuro chegou. E não pediu licença.
Hoje, drones baratos destroem equipamentos milionários. Satélites comerciais apoiam operações militares. Inteligência Artificial acelera análise e decisão. Guerra eletrônica interfere em comunicações e navegação. Um ataque cibernético pode comprometer bancos, energia, telecomunicações, infraestrutura crítica ou sistemas militares sem que um único soldado atravesse a fronteira.
Mas, relendo o trabalho, percebi algo ainda mais provocativo, talvez o maior problema não seja tecnológico. Seja mental e organizacional.
Em 2010 escrevi que “a centralização excessiva e a microadministração podem deixar qualquer organização militar muito rígida para responder a um inimigo flexível e de movimento rápido”, que pode até ser um inimigo interno.
De que adianta comprar tecnologia do século XXI se continuarmos pensando, decidindo e adquirindo com estruturas do século XX?
A guerra contemporânea exige integração, sensores, inteligência, comunicações, cibernética, guerra eletrônica, drones, satélites e poder de fogo. Mas exige algo ainda mais difícil de comprar, liberdade de ação, velocidade decisória e capacidade de adaptação. E como ainda está o “Grande Transatlântico das Forças Armadas”? Que demora muito tempo para mudar a rota.
E aqui está outro ponto incômodo para o Brasil.
Comprar equipamento moderno no exterior pode resolver uma necessidade imediata. Não resolve necessariamente uma vulnerabilidade estratégica. Quem não domina tecnologias críticas pode continuar dependendo de componentes, códigos, atualizações, dados, munições e decisões tomadas fora do País. Não foi assim na pandemia? Tínhamos insumos?
Por isso, Forças Armadas e Base Industrial de Defesa precisam caminhar juntas. Universidade, indústria, centros de pesquisa, startups e militares devem estar conectados antes da crise não depois dela.
Em 2010 parte importante de cada Força deveria permanecer preparada para enfrentar a guerra que o futuro apresentasse.
Passaram-se 16 anos.
Talvez seja hora de inverter a pergunta, não devemos perguntar apenas se estamos preparados para a próxima guerra. Devemos perguntar quanto tempo ainda podemos perder preparando-nos para a guerra passada.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático



