Quando a história volta à mesa de negociações, algo que deveria funcionar, não está funcionando (por Luiz Alberto Cureau Júnior)

Ao defender recentemente o fortalecimento das Forças Armadas e da Base Industrial de Defesa, o [...]

Ao defender recentemente o fortalecimento das Forças Armadas e da Base Industrial de Defesa, o presidente brasileiro lembrou que o Brasil não pode esquecer episódios históricos como a Guerra do Paraguai. A referência reforça uma verdade permanente, a paz exige preparo, e a soberania depende da capacidade de proteger os interesses nacionais.

Poucos dias depois, o tema voltou ao debate por outro caminho, demonstrando que a história nunca permanece apenas nos livros, e que países não tem amigos tem interesses.

Na diplomacia, quase nada acontece por acaso. Quando acontecimentos do século XIX retornam à agenda entre dois países, dificilmente tratam apenas do passado. Muitas vezes representam sinais políticos, testam posições e criam espaço para discussões mais amplas. Estados responsáveis precisam compreender essas consequências e sinais.

O Brasil reúne características que o tornam um ator estratégico na América do Sul. São mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres, enormes reservas de água doce, minerais críticos, vasta biodiversidade e uma infraestrutura energética essencial ao desenvolvimento. Itaipu simboliza essa realidade. Muito mais do que uma usina, representa um ativo estratégico compartilhado que exige estabilidade, confiança mútua e capacidade permanente de diálogo.

É justamente nesse ponto que defesa, diplomacia, energia e desenvolvimento industrial deixam de ser assuntos separados. Todos fazem parte da mesma estratégia nacional.

A diplomacia continuará sendo o principal instrumento para administrar divergências entre Estados. Entretanto, produz melhores resultados quando representa um país preparado para defender seus interesses. Diplomacia e capacidade de dissuasão não competem, complementam-se.

Dissuasão não significa ameaça. Significa reduzir a possibilidade de conflito ao demonstrar que qualquer pressão encontrará um Estado organizado, preparado e tecnologicamente capaz. O objetivo não é vencer guerras, mas evitar que elas aconteçam.

Essa capacidade depende de Forças Armadas modernas, adestradas e equipadas, mas também de uma Base Industrial de Defesa forte, capaz de desenvolver tecnologias críticas, reduzir dependências externas e garantir autonomia. Países que produzem sua própria defesa negociam com maior liberdade e são naturalmente mais respeitados.

Em um mundo onde energia, minerais estratégicos, água e infraestrutura crítica ocupam o centro da geopolítica, preservar a soberania exige mais do que discursos. Exige planejamento, continuidade e visão de Estado.

O Brasil sempre cultivou a solução pacífica das controvérsias. Esse patrimônio deve ser preservado. Mas a história demonstra que a paz duradoura depende de uma diplomacia competente, respaldada por Forças Armadas preparadas e por uma Base Industrial de Defesa capaz de proteger, com credibilidade e capacidade de dissuasão, os interesses permanentes da Nação.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático

Compartilhe esse artigo: